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Diário do Aruanda 2013 – Cidade de Deus – 10 Anos Depois e Setenta

Luiz Zanin Oricchio

17 de dezembro de 2013 | 14h29

 

JOÃO PESSOA – Dois fortes concorrentes passaram pela tela do Aruanda – Cidade de Deus – 10 Anos depois, de Cavi Borges e Luciano Vidigal, e Setenta, de Emília Silveira. Dois docs brasileiros, falando de realidades distintas.

O primeiro resgata os destinos díspares dos atores que interpretaram personagens no mais do que famoso filme de Fernando Meirelles, Cidade de Deus, lançado em 2003. O segundo se ocupa dos destinos, não menos diferentes, dos presos políticos libertados a troco da vida do embaixador da Suíça, durante os anos de chumbo da ditadura brasileira.

Como disse o diretor Luciano Vidigal, Cidade de Deus – 10 anos Depois, “é um filme sobre a fama, e suas consequências”. De fato. Vemos na tela o que aconteceu com os então anônimos intérpretes de personagens depois tornados conhecidos, como Zé Pequeno, Mané Galinha, Marreco, Bené, Neguinho. Alguns continuaram na profissão que lhes era oferecida pela adaptação de Meirelles do livro de Paulo Lins. São os casos de Leandro Firmino da Hora, Seu Jorge, Roberta Rodrigues. Outros mergulharam de novo no anonimato e tocaram suas vidas. Outros casos, dramáticos, registram envolvimentos com drogas e o crime.

Não é fácil se tornar famoso de um dia para outro, ter o filme no qual você trabalha comentado em vários países, desfilar no tapete vermelho em Cannes e em Hollywood e depois voltar para uma casa precária na “comunidade”, que é como se chama a favela hoje em dia. Um dos personagens comenta dessa forma a montanha-russa da sociedade da celebridade. Outro, que não continuou como ator, mas leva a sua vida de forma humilde, faz o comentário mais tocante do filme: “Se eu tiver oportunidade de interpretar outro papel no cinema vou tentar, porque é tão bom me sentir um outro que não sou eu…”

O filme se sustenta nesses bons depoimentos e, num ritmo ágil, que talvez lembre o original Cidade de Deus. Um cineasta presente no evento comentou, em off, que talvez tivesse sido melhor propor um outro tipo de andamento, até para se opor à matriz e revê-la criticamente. Talvez. Mas a opção dos diretores foi essa e deu certo. Com exceção de uma passagem encenada, e bastante artificial, em que o hoje vitorioso Seu Jorge recebe outro ator, ascensorista do hotel onde o astro se hospeda, todo o resto do filme respira naturalidade. E sinceridade. É, como bem definiu Vidigal, um belo ensaio sobre a fama à brasileira.

Setenta, por outro lado, desvenda não propriamente os bastidores da luta armada, mas a leitura emocional que algumas pessoas dela fizeram. “Meu propósito era mesmo ver como aquelas pessoas, que passaram por situações terminais como a tortura, se encontravam hoje em dia”, diz a diretora, ela mesma ex-presa política.

É evidente que, na recordação das pessoas, muitos fatos trágicos vêm à luz. Houve suicídios, um deles bastante conhecido, o do dominicano Frei Tito Alencar. Um militante, famoso por seu bom humor, conta como sua mulher se jogou debaixo de um trem em Berlim. São histórias pungentes.

Mas o tom geral do filme não é esse. “Procurei evitar o chororô, a heroicização daquele período”, conta a diretora. Desse modo, as histórias são recolhidas sob a forma de causos, de fatos que foram muito trágicos no momento em que aconteceram, mas podem ser reelaborados, tempos depois, sob a forma do humor. Afinal, mais de 40 anos se passaram e houve tempo para a digestão. Setenta oferece uma nova visão sobre um dos períodos mais negros da história brasileira recente. Esse dado do humor “É uma característica nossa”, diz Chico Mendes, um dos 70 presos trocados pelo embaixador e presente em João Pessoa. E Setenta traz a marca de um olhar feminino sobre aquele ambiente de contestação da ditadura.

Ao mesmo tempo, o filme tem alguns depoimentos bombásticos como a autocrítica de uma das principais lideranças da época e que estava entre os “setenta” trocados pelo embaixador – Jean Marc von Der Weid. “Fomos vítimas de dois males da esquerda da época – o voluntarismo e o vanguardismo”. Ou seja, a esquerda armada achava que estava na vanguarda popular e seria seguida pelo povo caso ateasse a chama da revolução (teoria do foco, de Che Guevara). E, voluntarista, acreditava que a realidade se curvaria aos seus desejos, sem levar em conta a desproporcional correlação de forças. Enfim, Setenta é um filme tocado pelo afeto, mas que não deixa de lado o fator analítico para compreender uma época ainda insuficientemente visitada.

 

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