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Diário do Aruanda 2013 – a noite de Ney

Luiz Zanin Oricchio

14 de dezembro de 2013 | 19h18

 

JOÃO PESSOA – Este é, provavelmente, o único festival do mundo que tem o nome de um filme. Mas que filme! Aruanda, o festival de cinema de João Pessoa, na Paraíba, tomou como nome a obra maior do seu conterrâneo Linduarte Noronha (1930-2012), que foi considerado um dos precursores do Cinema Novo. Em 1959, Linduarte filmou a história e o cotidiano dos moradores de um quilombo, em Serra Talhada, que viviam numa espécie de economia primitiva. Sobreviviam  da fabricação de potes de barro, da mesma maneira como haviam vivido seus ancestrais escravos que tinham fugido e fundado a comunidade no século anterior.

Aruanda surge a partir de reportagens feitas pelo próprio Linduarte para o jornal paraibano A União e pelo correspondente do Estado de S. Paulo na Paraíba, Dulcício Moreira. Ambos subiram ao Talhado em lombo de burro e, na volta, escreveram para seus jornais. Linduarte, com veleidades cinematográficas, voltou ao assunto com seu filme Aruanda, de 22 minutos, feito com uma câmera emprestada por Humberto Mauro. O filme foi considerado pelos então jovens cineastas Glauber Rocha e parceiros um modelo do que poderia ser o cinema do Terceiro Mundo, sem enfeites nem firulas, incorporando a precariedade da produção à linguagem cinematográfica e retratando, sem retoques, os contrastes econômicos da sociedade brasileira.

Inspirado pelo filme, e pela vocação cinematográfica do seu Estado natal, o professor da Universidade Federal da Paraíba, Lúcio Vilar, criou o Cine Fest Aruanda, que chega agora à 8ª edição. Neste ano, o Aruanda selecionou oito longas-metragens para sua mostra competitiva. Três são produções nordestinas – Tudo que Deus Criou, de André da Costa Pinto (PB), Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro (PE), e Os Pobres Diabos, de Rosemberg Cariry (CE). O cardápio completa-se com produções cariocas e paulistas. Pelo Rio, vêm Olho Nu, de Joel Pizzini, Setenta, de Emilia Silveira, e Cidade de Deus – Dez Anos Depois, de Cavi Borges & Luciano Vidigal, além da animação Luz, Anima, Ação, de Eduardo Calvet. São Paulo marca presença com Se Deus Vier que Venha Armado, de Luís Dantas, que é professor universitário (da USP) e estreia na ficção com uma interessante reflexão sobre a violência urbana.

O festival teve na abertura a apresentação do concorrente Olho Nu, de Joel Pizzini, e com a presença do personagem do filme e um dos homenageados do Aruanda – Ney Matogrosso. Defini-lo apenas como cantor seria empobrecer sua personalidade. Cantor? Dançarino? Ator? Performer? Ney foi e é isso tudo, e essa presença multifacetada na cena cultural brasileira aparece muito bem expressa no ensaio poético que lhe dedica Pizzini. Ensaio porque é mesmo uma tentativa de aproximação a essa figura complexa. Poético, porque o filme se constrói por arranjos e aproximações do farto material audiovisual, do passado e do presente, orquestrado pelo diretor. Há rimas e dissonâncias nesse arranjo, além das muitas músicas interpretadas por Ney – do antológico Sangue Latino a clássicos da canção brasileira como Carinhoso.

Com a presença de Ney Matogrosso, a abertura do Aruanda tornou-se apoteótica. As pessoas o viram passar no shopping center onde fica o cinema que este ano sedia o festival, e criou-se o boato que haveria um show de Ney Matogrosso naquela noite em João Pessoa. Como consequência, o cinema lotou, Ney foi ovacionado, e o filme, muito aplaudido.

Pizzini explicou como fez para sintetizar em hora e meia todo o material de que dispunha e o mais o que ele próprio filmou como entrevistas ou imagens do Ney Matogrosso atual. “Fiquei impressionado com a forma física que o Ney ostenta, aos 72 anos de idade e lhe perguntei como fazia para manter o visual enxuto”. O artista respondeu simplesmente que sempre saía da mesa sentindo um pouco de fome. Pizzini teve um estalo: “É isso aí, não posso querer esgotar o assunto quando se trata de uma pessoa com mais de 40 anos de presença intensa na cena brasileira. Então eu sugiro coisas, mas deixo o espectador sentir um pouquinho de fome no final”. De fato, as lacunas deixadas pelo filme não parecem nunca uma forma de incompletude, mas um convite para que se volte à obra de Ney.

 

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