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Diário de Veneza: Vincent Gallo, seu ego, seus filmes

Luiz Zanin Oricchio

07 de setembro de 2010 | 12h54

Vincent Gallo virou o personagem da hora em Veneza. Ao menos por um dia. Chegou de barco ao Hotel Excelsior com a cabeça escondida por uma máscara para não ser reconhecido. É protagonista absoluto de Essential Killing, do polonês Jerzy Skolimowski; escreve, produz, dirige e interpreta Promises Written in Water, filme que, por sua determinação, não tem sinopse disponível no catálogo. Não compareceu à coletiva de imprensa de Essential Killing e mandou dizer ao público que não dá entrevistas de qualquer tipo e não pisará no tapete vermelho que leva ao Palácio do Cinema para a projeção oficial. Tipo difícil, não é?

O resultado é que esse anti-marketing funcionou direitinho: as filas eram longas para a primeira sessão de Promises Written in Water, lotando a imensa (e desconfortável, porém de boa projeção) Sala Darsena. Tudo porque, além do apelo carismático de Gallo, com sua aura de maudit, o filme, em si, prometia cenas fortes. E não decepcionou, nesse sentido, embora não se compare ao anterior, The Brown Bunny, que eletrizou o Festival de Cannes de 2003 com um longo fellatio, em tempo real, encenado, ou vivido de forma real, pelo próprio Gallo e sua partner na ocasião, Chloé Sevigny. Em Promessas Escritas na Água, o máximo que se vê é um corpo feminino explorado em detalhes, tudo em primeiro plano – boca, língua, orelha, seios, pernas e um close final no púbis.

No entanto, o filme não é a celebração do sexo, mas um embate com o amor e a morte. Ouve-se no início uma voz de mulher, em off, dizendo que não tem medo de morrer, e que o namorado deve tomar conta do seu corpo quando ela se for. É uma doente terminal, Charlotte (a belga Delfine Bafort), que passa a ser evocada ao longo do relato. Se é que se pode chamar relato ao que se vê na tela. Gallo filma em planos parados, longos, evocativos, num bonito preto e branco. Prefere ser poroso que redundante; trabalha com lacunas. Repete (falas e imagens), não para ser didático, mas para provocar estranheza. Não fosse sua presença narcísica e insistente diante da câmera, o filme seria melhor do que é. Mas há uma dor, que o leva além da ego trip. Ao fim, alguns aplausos. E muitas vaias.

Já em Essential Killing, Gallo tem de se colocar a serviço de outro diretor e portanto alcança alguma disciplina como ator. Ele faz o guerrilheiro afegão Mohamed, preso pelo exército americano, torturado e depois levado para um país europeu indeterminado, onde consegue fugir. Parece incrível, mas Gallo interpreta à perfeição um talibã. A essência do filme é a perseguição levada a cabo através de uma gélida paisagem nevada. “Foi filmado na Noruega”, informa Skolimowski na entrevista à qual Gallo faltou. “E”, ajunta o diretor, “não quis fazer um filme político, ou de denúcia do que quer que fosse, mas apenas registrar as reações de um homem desesperado, em fuga, ferido, faminto e disposto a matar quem encontrasse pelo caminho”. Há, no entanto, em meio a tanta desolação, uma cena de grande ternura, quando Mohamed é acolhido por uma desconhecida interpretada pela francesa Emmanuelle Seigner.

Brasileiro – O único brasileiro que disputa algum prêmio na edição deste ano, o curta-metragem O Mundo É Belo, de Luiz Pretti, foi bem acolhido pelo público. E não se trata de obra fácil. Mostra o céu, o rumor do mar, do vento nas árvores. É sensorial e tenta tratar, de forma cinematográfica, essa epifania jovem de se descobrir vivo, diante da beleza das coisas. Comovendo-se, ele nos comove.

Filme surpresa é o chinês La Fossé
O concorrente desconhecido ao Leão de Ouro foi, enfim, exibido: trata-se do chinês Le Fossé, de Wang Bing. É o relato cru da vida num campo de concentração no deserto de Gobi, onde dissidentes eram enviados, em 1960, para “reeducação”. Nada do sofrimento dos prisioneiros é poupado ao espectador. Moram em cavernas, alimentam-se de raízes, ratos e há casos de canibalismo provocado pela fome. Wang filma em planosl longos, decerto para que o impacto seja maior. Não escapa à banalidade do filme-denúncia. Na entrevista, irritou-se com perguntas sobre o conteúdo político do trabalho: “Meu filme não é contra nada e nem ninguém; apenas quis recuperar esse período da história, que não conhecia pois nasci em 1967, e fazer uma homenagem a essas pessoas”, disse.

Compreende-se a discrição, pois a China não é modelo de democracia. Wang ficou bravo também quando lhe perguntaram se havia filmado de maneira clandestina e se o filme seria exibido em seu país. Isso posto, há uma sequência realmente forte, quando a mulher de um dos prisioneiros vai visitá-lo, descobre que o marido está morto e busca sua sepultura para desenterrá-lo e lhe dar funeral digno. Essa Antígona às avessas, com a dignidade do seu modelo grego, salva o filme.
Enquanto isso, com o festival já pela metade, crescem alguns títulos na bolsa de apostas. Um dos mais cotados é o russo Ovsyanki (Almas Silenciosas), de Aleksei Fedorchenko. Ao saber da morte da mulher que ama, Tania, Miron pede ao seu melhor amigo, Aist, que o ajude no funeral segundo a tradição meria, uma antiga tribo, perdida dos confins do Mar Negro. O filme é lindíssimo do ponto de vista visual, e tocante. Este, vocês vão poder ver – Leon Cakoff, diretor da Mostra de Cinema de São Paulo, disse ao Estado que já o programou na edição deste ano.
Outro cotado é Post Mortem, ensaio do chileno Pablo Larraín sobre os efeitos do golpe no Chile sobre as pessoas comuns. A história do caso de amor entre um escrivão do IML e uma dançarina, em meio a um mar de cadáveres, e da dissecação do corpo de Salvador Allende, tocou a muita gente em Veneza. É filme de grande rigor artístico, maravilhosamente interpretado por Alfredo Castro no papel do ambíguo Mário. Recebeu ótimas críticas e está no páreo.

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