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Diário de Veneza: Tudo pelo Poder

Luiz Zanin Oricchio

01 de setembro de 2011 | 13h17

É um show à parte ver um ídolo de Hollywood chegar ao Lido de Veneza. Os mortais vêm por terra; os deuses não descem dos céus, mas viajam em lanchas privativas. Foi assim que chegou George Clooney ao embarcadouro do Casinò, vetusta e imponente construção da primeira era fascista. Uma multidão de fãs e fotógrafos o esperava. Uns rivalizavam com outros numa gritaria digna de deixar a tietagem do Festival de Gramado no chinelo. Aqui estamos entre profissionais.
Clooney veio em companhia de parte do elenco e equipe do concorrente que abre a 68ª Mostra de Veneza, The Ides of March, que estreia em outubro no Brasil sob o título de Tudo pelo Poder. O filme é baseado numa peça de Beau Willimon, Farraguth North. O título original, “os idos de março” referem-se à data do assassinato de Júlio César em 44 a.C. por seu filho adotivo, Brutus, e outros conspiradores.

Tem tudo a ver com essa trama de bastidores políticos, interpretada e dirigida pelo próprio Clooney. Ele faz o governador Mike Morris, que disputa as primárias em Ohio e tem boas chances de se eleger presidente dos Estados Unidos. Mas o foco todo da história recai sobre o assessor Stephen Myers, numa bela composição de Ryan Gosling. Ao longo da campanha, Myers envolve-se com a estagiária Molly (Evan Rachel Wood) e também faz um aprendizado rápido do jogo sujo da política.

Na entrevista, Clooney disse que Não havia nada de novo naquilo que mostrava. “As coisas são assim desde Julio Cesar. Talvez seja uma consequência da nossa falta de saúde mental. Deveríamos ter feito o filme em 2007, depois houve Obama, e o filme era tão cínico, que o momento não era apropriado. Agora achamos que essa história voltou a ter o que dizer às pessoas.”

Ou seja, pode-se deduzir que seja o resultado de uma experiência de desilusão política. Ou, pelo menos, a desilusão com Obama tornou a obra atual tanto para o diretor como, supostamente, para o público norte-americano, o voto democrático que esperava mudanças radicais do primeiro presidente negro da nação.

Outro tema abordado é o da sedução como arma política. Ela se dá em diversos níveis. Por exemplo, a personagem de Evan Rachel Wood, é envolvente por si mesma. Sexo e política andam juntos, embora nem sempre combinem, ainda menos no pseudopuritanismo americano. Mas há outros tipos de apelo. Paul Giamatti diz que seu personagem Paul Duffy seduz apenas com as palavras. É ele quem tenta fazer Stephen mudar de lado no jogo sujo da campanha eleitoral. “A política toda é muito sexy na América”, diz o ator.

Um jogo perigoso, esse da coabitação entre política e sexo, tanto que um personagem diz a certa altura que “Você pode fazer quase tudo, aumentar impostos, roubar, levar seu país à guerra; só não pode transar com a estagiária”. Alusão a Clinton, mas a todo político pego em flagrante ou suposta escapadela sexual. O resto não interessa.

Esculpido numa dramaturgia convencional, porém sólida, Tudo pelo Poder é um drama político adulto, desencantado e realista. Muito bem interpretado naquilo que o cinema norte-americano tem de mais solidificado por décadas seguidas de produção sem descontinuidade. Convence. A peça foi escrita antes da era Obama e mesmo o filme foi planejado antes da sua eleição. Mas dele pode-se dizer que, na figura do assessor Stephen Myers, acompanha um processo de amadurecimento político. Processo que costuma vir pelas vias da desilusão e do sofrimento.

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