Diário de Veneza: a Espanha desvairada de Alex de la Iglesia
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Diário de Veneza: a Espanha desvairada de Alex de la Iglesia

Luiz Zanin Oricchio

08 de setembro de 2010 | 19h43

balada triste de trompeta (2)

Enquanto dois palhaços divertem as crianças no picadeiro, fora do circo prossegue a sangrenta guerra entre fascistas e republicanos. É assim, pontuando ora sobre o drama peculiar dos personagens, ora sobre a história do país, que o diretor Álex de la Iglesia conduz seu Balada Triste de Trompeta dos tempos da Guerra Civil até o atentado contra Carrero Blanco, já no ocaso do franquismo. Tudo isso, e , de bônus, um gran finale, à maneira de Hitchcock, no Valle de los Caídos, o monumento erguido por Francisco Franco.

Balada Triste de Trompeta é saboroso como uma paella, cheio de personalidade como um Rioja, sangrento como uma tourada. Espanhol até a medula, conta, em primeiro plano, a história de um triângulo amoroso entre dois palhaços (Carlos Aceres e Antonio de la Torre) e a acrobata do circo, vivida por Carolina Bang – um portento ibérico. Guardem esse nome. Por trás, ou em volta desse romance, uma história real, a da Espanha, trágica, exasperada, às vezes ridícula, outras vezes sublime. Tudo isso, De la Iglesia tenta conter nesse filme desmedido, sem qualquer vocação para o realismo, que enfrenta as situações mais inverossímeis e grotescas com um sorriso de desfaçatez. Não por acaso, a Espanha foi a pátria de dom Luis Buñuel.

O próprio De la Iglesia admite que seu filme não passa de um longo e talvez desesperado exorcismo: “Temos essa sensação de um passado sinistro, de uma violência sem fim, hostilidade pela qual nós, da nossa geração, não somos responsáveis. Essa agressividade que se vê ainda pelas ruas, parece natural; mas não, é o inferno que nos tocou viver. Esssa violênicia repercute no filme, é claro. É, assim, um exorcismo ritual. Esse enfrentamento com a história que nos coube.”

Por sorte, o banho de sangue proposto é temperado com uma ternura de intensidade igual, mesmo que travestida pelo amor louco que dois homens desfigurados, os palhaços Javier e Sergio, alimentam pela mesma mulher. “No fundo, Balada é um filme de amor. Demente, violento, maníaco, mas amor.”, diz o cineasta. Amor pelas personagens. Amor pela Espanha.

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