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Diário de Veneza (7) Balancete dos primeiros dias

Luiz Zanin Oricchio

05 de setembro de 2009 | 07h26

Amigos, como todo festival este aqui também é punk. A gente dorme tarde e acorda cedo. Corre atrás de filmes e entrevistas. Tem de mandar o material para o jornal todo dia. Então, quando dá, a gente posta alguma coisa no blog. Durante essa primeira semana quase não tive tempo. Então, alguns filmes foram ficando para trás. Por isso, para pagar meus pecados e saldar algumas contas, faço um balancete do que vi até agora. É uma primeira impressão do festival. Rápida e provisória.

La Grande Guerra – obra-prima de Mario Monicelli. Um dos filmes agridoces sobre a guerra, com o humor de Vittorio Gasmann e Alberto Sordi em seu ponto maior. Mas não é apenas humor, pois tudo está lá, duro quando tem de ser, fazendo deste um dos grandes filmes antibélicos do cinema. Amei rever em cópia esplêndida, recuperada.

Baarìa, de Giuseppe Tornatore – volta a sua Sicília natal. Tem qualidades, mas poderia ser melhor sem os excessos melodramáticos e a trilha sonora bombástica de Ennio Morricone. Pretende-se um Novecento siciliano, mas Tornatore (sorry) não é um cineasta como Bernardo Bertolucci e nem tem a sua veia política.

The Road, de John Hillcoat – tirado do romance de Cormac McCarthy que não sei se foi traduzido no Brasil. Pai e filho vagam após um cataclisma que destruiu a civilização. É duro, é bem filmado, mas poderia dispensar alguns truques fáceis para assustar o espectador e conservar-se no essencial. Viggo Mortensen muito bem.

Temporale Rosy, de Mario Monicelli – um filme do maestro, dos anos 70. Não é um dos grandes mas mesmo assim…Traz um Depardieu novinho no papel de um lutador de boxe que tem de abandonar a carreira depois de fraturar a mão. Ele conhece uma lutadora de telecatch, a Rosy do título, mais forte e mais alta do que ele. Monicelli disse que a moça, uma americana, era de fato lutadora profissional. O casal vive um amor bandido, cheio de brigas e barracos em geral. Monicelli diz que o filme é “sbagliatto”, fracassado. Mas não é. É divertido e tira uma poesia engraçada dessa contradição, bem sacada pelo diretor: lutadores são brutos e, ao mesmo tempo, têm alma ingênua, quase pueril.

Life During Wartime, de Todd Solondz – para mim, até agora o melhor da mostra competitiva. O uso do politicamente incorreto, de situações levemente surrealistas, em mise en scène rigorosa, faz um diagnóstico preciso da paranóia americana, da busca enlouquecida pelo sucesso, das taras e da obsessão pelas taras, que chega a ser pior do que elas próprias. Releitura, anoas depois de Happiness, do próprio diretor. Mas talvez o carinho pelos personagens tenha aumentado. Solondz amadurece. Como dizia Vinicius de Moraes, não há nada como o tempo para passar.

Prince of Tears, de Yofan – melodrama taiwanês sobre a repressão anticomunista no começo dos anos 50, quando Chiang Kai Chek criou Formosa, depois da revolução maoísta de 1949. Filme correto, imagens de cartão postal, belas mulheres mas a trama folhetinesca atrapalha um bocado. Folhetim só é bom quando assumido, como eram os de Alexandre Dumas.

Lourdes, de Jessica Hausner – análise límpida, embora um tanto fria, do mercado da fé no santuário de Lourdes. Moça vai em busca de um milagre, consegue mas parece que a coisa é pouco duradoura. Há uma fineza da diretora na maneira como os personagens são retratados. A ironia, sempre contida, é um ponto forte, e apoio à reflexão para o espectador.

Bad Lieutenant, de Werner Herzog – refilmagem de Vício Frenético, de Abel Ferrara, com Nicolas Cage fazendo o papel do policial drogado que era de Harvey Keitel no primeiro filme. Uma aposta no desequilíbrio, na instabilidade, que se instala a partir da própria postura corporal de Cage. Fica a sensação de coisa requentada, mas tem qualidade.

Accident, de Soi Cheang – da escola de filmes policiais de Hong Kong, que tem adeptos e fanáticos espalhados pelo mundo. Não sou um deles. Mas é fácil ver algumas qualidades cinematográficas nessa história de um bando que liquida suas vítimas simulando acidentes de maneira perfeita. Eles próprios podem estar sendo vítimas de procedimento semelhante, uma situação em espelho, tão a gosto desses diretores. No fundo, uma sensação de vazio. Os franceses fazem uma pergunta nesse tipo de situação: à quoi bon. Para que serve.

My Son, My Son, What Ye Have Done, de Herzog, já falamos no post anterior.

Até aqui foi isso. Já assisti mais um, Persécution, de Patrice Chéreau, mas quero deixar que decante ainda em mim.

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