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Diário de Veneza 2012 Um Brian De Palma decepcionante

Luiz Zanin Oricchio

08 de setembro de 2012 | 10h52

Um Brian De Palma decepcionante marcou o último dia de competição em Veneza. Passion, remake de Crimes de Amor, do francês Alain Corneau, visita, em clima hitchckochiano, as rivalidades no mundo corporativo. Rachel McAdams e Noomi Rapace são antagonistas numa agência internacional de publicidade. Noomi tem a ideia genial para uma peça publicitaria, mas Rachel a apresenta como sua aos chefes. Quer descolar uma vaga em Nova York e está disposta a tudo para consegui-la.

Essa trama é pretexto para De Palma exibir seus dotes de citação e reprocessamento, mas, desta vez, sem grande inspiração. Tanto assim que Passion foi recebido com vaias, mais ainda que o, até então campeão no quesito apupos, o israelense Fill the Void. Não que Passion seja pior. Nada disso. Tem até momentos interessantes e inteligentes, embora paire no ar a sensação de déjà vu. As vaias devem ser entendidas no contexto da frustração. Quando se espera muito, e se é decepcionado, a reação tende a ser agressiva.

Na defensiva, De Palma foi lacônico durante a coletiva de imprensa. Parecia pressentir algum tipo de questionamento, que não veio. Mesmo assim, preventivamente, tratava de desqualificar as perguntas, ou fazer piadas evasivas.

Na parte em que conseguiu ser sério, definiu Passion como thriller erótico, fiel à sua inspiração de sempre em Hitchcock. Procura de fato ter esse clima, mas um artificialismo notório o joga para baixo em muitas passagens. Que ninguém diga que não é bem filmado, mas falta-lhe alma, o que no cinema é essencial. No entanto, a história poderia ser bastante instigante. Christine (Rachel McAdams) é uma manipuladora essencial, mas encontra uma parada dura em Isabelle (Noomi Rapace). São o espelho uma da outra. De Palma trabalha sempre com essa noção do especular. Do engodo da imagem. Por exemplo, Christine às vezes gosta de transar usando uma máscara…de si mesma. Artefato que lhe causará problemas.

Nesse jogo especular, o espectador é jogado num crime cuja autoria não lhe parece difícil de decifrar, mas cuja solução lhe escapa, bem como ao ingênuo detetive incumbido de desvendá-lo. A história se passa na Alemanha, embora “viaje” a outros países. Assim como Woody Allen, De Palma também encontra dificuldades em ser financiado nos Estados Unidos.

Sobre o remake de um dos seus grandes sucessos, Carrie, a Estranha (1976), que está sendo feito pela diretora Kimberley Peirce, De Palma foi diplomático: “Kimberley é ótima diretora; vamos ver no que dá o filme”.

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