Diário de Veneza 2012 O Leão controverso de Kim Ki-Duk e um balanço final
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Diário de Veneza 2012 O Leão controverso de Kim Ki-Duk e um balanço final

Luiz Zanin Oricchio

10 de setembro de 2012 | 12h24

 

Havia três ou quatro filmes em condições de vencer o Festival de Veneza. Um deles, Pietà, do coreano Kim Ki-Duk levou o Leão de Ouro. The Master, do norte-americano Paul Thomas Anderson, ganhou o Leão de Prata de melhor direção e ainda dividiu a Coppa Volpi de ator entre seus protagonistas Philip Seymour Hoffman e Joaquin Phoenix. Après Mai, de Olivier Assayas ficou com o prêmio de roteiro. E a La Bella Adormentata, do italiano Marco Bellocchio, tocou apenas o prêmio Marcello Mastroianni, de ator estreante, a Fabrizio Franco, lembrado também por sua atuação em outro concorrente italiano, È Stato il Figlio.

O Prêmio Especial do Júri foi para o anticlerial Paraíso: Fé, do austríaco Ulrich Reidl. A Coppa Volpi de atriz ficou para Hadas Yaron, pelo inexpressivo israelense Fill the Void. Duas decisões contestadas pelo público que seguia a premiação. Fechando a lista de contemplados, È Stato il Figlio, de Daniele Ciprì, teve sua fotografia reconhecida com o prêmio de melhor contribuição técnica. E foi só.

São assim as premiações em Veneza. Poucos troféus. E, às vezes, muita intriga e confusão. Desta vez não foi diferente. Já no palco da Sala Grande, a principal do evento, percebia-se que algo não ia bem. Tenso, o presidente do júri, o diretor norte-americano Michael Mann (de Miami Vice) trocou as bolas e inverteu os vencedores de Leão de Prata (direção) e Prêmio Especial do Júri. Os troféus tiveram de ser destrocados ainda no palco, sob constrangimento geral.

Depois, na tradicional coletiva de imprensa que se segue à cerimônia, houve novos momentos de saia justa. Em especial quando uma jornalista perguntou ao jurado Matteo Garrone (de Gomorra e Reality) o porquê da pífia premiação dos concorrentes italianos. Garrone estava prestes a responder quando foi interrompido por Mann, dizendo que o júri não discutiria seus critérios internos e que nacionalidades não foram cogitadas nas escolhas, mas apenas o mérito dos filmes em si. Houve outra tentativa de extrair alguma coisa de Garrone e Mann, de novo, não deixou. Foi apoiado pela atriz Samantha Morton, também jurada, que ainda considerou as perguntas “indelicadas”.

O caráter autoritário de Mann ficou claro na resposta que deu a um jornalista. Perguntado por que haviam elegido Hadas Yaron melhor atriz, limitou-se a responder: “Porque a consideramos a melhor atriz”. Sorrisos amarelos dos outros membros do júri. O homem é um caubói e não estava lá para dar satisfações na ninguém.

Na própria noite de premiação, a influente revista Hollywood Reporter, soltou em seu site matéria afirmando que o júri, inicialmente, queria dar o Leão de Ouro a The Master, de Paul Thomas Anderson. Mas, surpreso com a regra de Veneza, que impede o acúmulo do Leão de Ouro e outros prêmios pelo mesmo filme, teria se irritado e resolvido premiar Kim Ki-Duk. Tudo para poder dar dois prêmios a The Master. Pode ter acontecido isso, mas não faz muito sentido. Não seria a primeira vez que essa regra é contestada. Em 2009, Tarantino, então presidente do júri, disse que essa disposição teria de ser mudada. Não foi. Mas um corpo de jurados desconhecer a regra seria a mesma coisa que dois times de futebol profissional ignorarem que não se pode colocar a mão na bola. Seja como for, as fofocas ferveram noite adentro e ainda devem se fazer ouvir pelos próximos dias, até o resultado ser digerido.

Alheio à polêmica, Kim Ki-Duk comemorou e muito o seu Leão. Chegou a cantar no palco, enquanto os jurados e público o ouviam com caras de tacho. Lembrou que já apresentara outros filmes em Veneza e agradecia este festival por tê-lo tornado conhecido no mundo ocidental. “Talvez esse prêmio facilite um pouco a divulgação do meu trabalho também em meu país”, disse, emocionado. Durante sua estada em Veneza, Kim Ki-Duk lembrou várias vezes que era mais conhecido na Europa que na Coreia.

A premiação de Pietà não foi surpresa. Há dias se falava, no Lido, que poderia levar o Leão. Sabe-se como são essas projeções. Atiram para tantos lados que uma delas sempre acaba por acertar o alvo. O fato é que Kim Ki-Duk era mesmo uma das alternativas válidas. Mas sempre havia a tese de que Paul Thomas Anderson fora a presença mais esperada no Lido e entrara à última hora com um filme tecnicamente complicado, rodado em 70 milímetros. Além disso, o júri era presidido pelo americano Michael Mann, que poderia ficar tentado em trazer mais um Leão de Ouro para seu país, como fizera Quentin Tarantino ao premiar Sofia Coppola em 2009.

O premiado principal tem muitos méritos, embora não seja unanimidade. Conta a história de um cobrador de dívidas que trabalha para um usurário. Com seus métodos de cobrança cruéis, que consistem em forjar acidentes para que os endividados possam levantar indenizações e assim pagar o credor, ele é o protótipo do ser amoral. A vida muda com a chegada de uma mulher que se apresenta como sua mãe. Ela o teria abandonado na infância e voltara para se redimir. Cruel, forte, poético, encantou parte da crítica e o público em Veneza. O júri o reconheceu. Um crítico importante como Paolo Mereghetti, do Corriere della Sera, acha o filme “mecânico”em sua demonstração dos malefícios do “capitalismo extremo”, como o definiu Kim Ki-Duk. Há espaço para discussão. Mas Pietà impressiona, não há como negar.

Balanço Final

Se é verdade que o resultado do júri fornece o retrato final de um festival, o de Veneza 2012 não pode ser considerado muito nítido, devido ao autoritarismo de Michael Mann e as confusões que dela resultaram. Mas não se pode esquecer também que, em meio à crise européia, Veneza fez um belo festival, mostra mais sintética e empenhada em relação às de anos anteriores, na qual a grande atração foram os filmes e não as celebridades na passarela. Tudo isso conta, e muito.

Quem seguiu esta edição do Festival de Veneza teve a oportunidade de sacar tendências do cinema mundial contemporâneo. Pietà é representante de um certo brutalismo oriental que, mesclado a um sentido poético, faz a crítica impiedosa do capitalismo selvagem. Kim Ki-Duk, goste-se dele ou não, faz cinema político, e da melhor qualidade, já que discute as condições reais a que os seres humanos são submetidos para sobreviver.

Olivier Assayas, saído da experiência vertical de Carlos, sua obra oceânica sobre esse personagem controverso, faz um recuo ao tempo da juventude e procura recuperar os ideais dos anos 60 e 70, porém sem romantizá-los. Com Après Mai, fez um filme de um frescor extraordinário, multifacetado, complexo, e também muito amoroso com os personagens.

Marco Bellocchio, com Bella Addormentata (Bela Adormecida), toma um caso que comoveu a Itália e, através dele, produz um poderoso afresco da era Berlusconi. O caso é o da jovem Eluana Englaro, em coma por 17 anos até que seu pai conseguiu uma medida judicial para desligar as máquinas. A Itália dividiu-se, católicos e leigos de lados opostos, conservadores e progressistas em trincheiras contrárias. O filme é magnífico. Pode-se dizer, sem medo de errar, que Bellocchio foi o grande injustiçado deste ano, assim como já o fora em 2003 com seu Bom Dia, Noite, sobre o caso Aldo Moro.

A parte espiritual ficou com Terrence Malick e seu To the Wonder, prosseguimento da sua busca metafísica iniciada com A Árvore da Vida, vencedor de Cannes no ano passado. Mas o fato é que Malick e a espiritualidade são exceções. O cinema de arte contemporâneo olha mais para a terra que para o céu.

Prêmios 

Veneza 69

Leão de Ouro para melhor filme: Pietà, de Kim Ki-Duk

Leão de Prata para melhor direção: Paul Thomas Anderson por The Master

Prêmio Especial do Júri. Paraiso: Fé, de Ulrich Seidl

Coppa Volpi melhor ator. Joaquim Phoenix e Philip Seymour Hoffman por The Master

Coppa Volpi melhor atriz. Hadas Yaron por Fill the Void

Prêmio Marcello Mastroianni para ator ou atriz estreante. Fabrizio Falco por È Stato il Figlio e Bella Addormentata

Prêmio para melhor roteiro. Olivier Assayas por Après Mai.

Prêmio para melhor contribuição técnica. Fotografia de Daniele Cìpri em È Stato il Figlio

Mostra Horizontes

Melhor filme: San Zimei, de Wang Bing (França, Hong Kong)

Prêmio Especial do Júri: Tango Libre, de Frédéric Fonteyne (França, Bélgica, Luxemburbo)

Melhor curta: Cho-De, de Yoo Min-Young (Coreia do Sul)

Leão do futuro para melhor primeiro filme: Kuf, de Ali Aydin (Turquia, Alemanha)

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