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Diário de Veneza 2012 Malick para quem sabe vê-lo

Luiz Zanin Oricchio

03 de setembro de 2012 | 12h48

 

Não se pode dizer que a primeira sessão de To the Wonder, o novo Terrence Malick, tenha sido um grande sucesso em Veneza. Um dos filmes mais esperados do festival, foi acolhido com reservas e ouviram-se mesmo alguns “búuuus”, que é a forma italiana de vaiar. Naturalmente, na sessão de gala deve ser diferente. Mas estas foram criadas para a consagração e, nelas, o mais ínfimo dos competidores é agraciado com pelo menos cinco minutos se aplauso. O que vale é a sessão da manhã, com público selvagem, composto de jornalistas do mundo inteiro, que não se sentem obrigados a badalar ninguém. Muitos cineastas consideram essas sessões verdadeiras carnificinas. Podem ter até razão. Mas é nelas que se fala a verdade a não nas oficiais.

Ou, pelo menos, a verdade parcial, já que um filme de Malick não é um produto qualquer, plastificado, como aqueles aos quais nos estamos habituando neste mundo descartável. A preocupação do cineasta parece ir em sentido radicalmente oposto. Ao efêmero, ele contrapõe uma reflexão sobre o absoluto. Deve ter consciência de que esse tipo de coisa não é exatamente popular nos tempos que correm. É um risco assumido. Sua obra merece decantação. Meditação. Paciência e tempo. Isto é, tudo que não temos.

Dito isso, Malick adota uma narrativa porosa, muito lacunar, que nos convida a acompanhar a vida de um homem, Neil (Ben Affleck) e duas mulheres com as quais ele se relaciona, a americana Jane (Rachel MacAdams) e a europeia Marina (interpretada pela beldade russa Olga Kurylenko). Há encontros e desencontros pelo caminho. Filhos deixados de lado ou mortos. Paisagens que se contrapõem entre a França e os Estados Unidos. O registro visual, contrastado, oscila entre o deslumbrante e o inquietante. Esparso entre várias locações, To the Wonder é também falado em diversos idiomas. Inglês, claro, mas também francês, italiano e espanhol. Esta última língua é falada, ou melhor, monologada pelo padre vivido por Javier Bardem. Ele próprio um expatriado, como Marina, em busca de um Deus que não lhe responde.

Em To the Wonder há, por um lado, a inquietação humana diante de sua incompletude. E há, nas imagens sempre recorrentes da natureza, com suas plantas, pedras e animais, uma visão do todo, da relação com o universo, já muito presente em A Árvore da Vida, seu trabalho anterior. Portanto, prossegue, com uma história diferente, essa busca do cineasta pela dimensão espiritual. Que não deve se confundir com religião, embora haja muitas cenas em igrejas. A aspiração de Malick me parece muito mais de cunho filosófico. Uma busca panteísta, de fusão com o eterno, do qual o amor terreno seria uma das vertentes, aquela à qual mais nos atemos porque, quando amamos somos um. Unos, mesmo que esse estado de euforia tranquila poucas vezes dure para sempre. Malikc pensa e o seu pensamento vem se desenvolvendo, como uma meditação continuada, de filme para filme. Gostar deles é questão pessoal e ninguém está apto a fornecer regras do gosto alheio. Mas é preciso tentar compreender o projeto de um artista. Em especial quando ele, sabiamente, não concede entrevistas. Como de hábito, Malick não veio ao festival.

 

 

 

 

 

 

 

 

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