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Diário de Veneza 2012 Escândalo no Lido

Luiz Zanin Oricchio

02 de setembro de 2012 | 06h41

O escândalo chegou a Veneza. Ou, pelo menos, uma tentativa de escândalo, na figura sempre controversa do austríaco Ulrich Seidl. Paraíso: Fé é a segunda parte da sua trilogia envolvendo mulheres e sua busca pela felicidade, pelo Éden. A primeira foi apresentada em Cannes, Paraíso: Amor, e também incomodou muita gente narrando o turismo sexual de mulheres austríacas no Quênia.

Agora é a fé. Mas uma fé não desprovida das tentações da sexualidade. Pelo contrário, a carola Anna Maria é vista, na primeira sequência do filme, diante de um crucifixo, pedindo ao Senhor, entre outras coisas, que a livre da fraqueza da carne. Em seguida, ela despe a blusa e, munida de um chicote, açoita-se nas costas, sem piedade. Estamos no mundo da flagelação da carne com vistas à purificação das almas. A vida de Anna Maria será complicada pelo retorno à casa do seu marido, um muçulmano que se tornou paraplégico, é idoso mas nem por isso renuncia aos seus direitos matrimoniais.

Durante a entrevista, Seidl foi interpelado por pelo menos dois jornalistas (ambos italianos) sobre suas ideias acerca da religião, e se ele acreditava que todos os católicos fossem tão carolas, e também atormentados, como a pobre enfermeira de meia-idade que protagoniza o filme. “Fui criado na fé católica, e isso é algo que não se esquece. No entanto, logo na juventude me rebelei contra a Igreja e a sua duplicidade moral”, diz ele, sem rodeios.

Disse que se interessava em devassar essa ambiguidade que cerca uma pessoa em busca da realização religiosa, mas também atormentada por seus desejos e por um mundo altamente sexualizado. Uma cena forte é a do regresso de Anna Maria à sua casa através de um bosque, no qual ela descobre que está se realizando uma animada bacanal entre as moitas. As tentações estão por toda parte, nas prostitutas que se oferecem à noite nos parques, nas imagens da TV (ela a deixa desligada), no próprio marido, que volta paraplégico, mas continua um sátiro.

O filme segue a estética usual de Ulrich Reidl, com seu hipernaturalismo, muitas vezes incômodo. As pessoas são o que são, com suas imperfeições físicas e morais. Nada é escondido, nem as banhas dos corpos e nem os pensamentos lúbricos. Faz um cinema entre a ficção e o documentário, como aliás já foi apontado pelo alemão Werner Herzog, que definiu a arte de Reidl como “o inferno visto de perto”. O próprio Reidl diz que se aproximou desse mundo das religiosas evangelizadoras, como Anna Maria, através de um documentário. Seguiu de perto a vida dessas mulheres que vão de casa em casa, nas horas vagas, munidas de uma imagem de Nossa Senhora e de livros de oração para converter gente de toda espécie. De imigrantes de outras religiões a alcoólatras ou “mulheres caídas em pecado”. É uma maneira de ver mais profunda desse tipo de missionária.

São pessoas em busca do Paraíso. Mas, em meio ao discurso monótono da religiosidade, o sexo aflora, como se fosse a tentação do Diabo. Enfim, o filme, talvez sem querer, ilustra uma das teses de Freud, por sinal austríaco como Reidl: quanto mais reprimida a sexualidade, mais pressão exerce sobre o ser humano. É o que ele chama de retorno do reprimido, no filme simbolizado pela volta do marido pródigo.

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