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Diário de Veneza 2012 Cuidado com as companhias

Luiz Zanin Oricchio

07 de setembro de 2012 | 08h19

O frisson de Veneza foi a presença sempre midiática de Robert Redford, que veio ao Lido para apresentar, fora de concurso, seu novo filme, The Company You Keep. Redford dirige e atua, fazendo o papel de um advogado viúvo, pai de uma menina de 12 anos. Jim Grant (é seu nome) vê seu passado de militante político vir à tona 30 anos depois quando uma companheira (Susan Sarandon) é presa. Eles faziam parte de um grupo radical, Weather Undeground, que praticava atos violentos como forma de contestação ao regime. Isso, na época da Guerra do Vietnã. Numa dessas ações, um assalto a banco, um homem é assassinado. O personagem de Redford é o acusado e ele se vê obrigado a fugir.

Em concorridíssima entrevista (é sempre assim com os astros americanos), Redford diz que se inspirou num personagem de Victor Hugo, em Os Miseráveis, para compor seu Jim Grant. Ele seria uma espécie de Jean Valjean moderno, “alguém perseguido implacavelmente por seu passado”. O Javert de Jim Grant é um agente do FBI, mas também um repórter ambicioso, Ben Shepard (Shia LaBeouf), que fareja no caso a matéria de sua vida, aquela que vai tirá-lo de um pasquim de Albany e levá-lo ao topo do New York Times.

O próprio LeBoeuf entende que o jornalismo é um subtema dessa trama. “Cada época tem o seu tipo de jornalismo próprio. Redford interpretou um repórter do caso Watergate (em Todos os Homens do Presidente), numa época em que não havia internet. Agora é outra coisa”, diz. “Mas, por diferentes que sejam, todos se confrontam com questões éticas, sobre quais os limites na busca pela verdade”. Como exemplo, LeBoeuf citou o livro O Assassino e o Jornalista, de Janet Malcolm, que discute exatamente a ética da profissão e a questão da fidelidade às fontes.

Redford entende que há um tema que prevalece em The Company You Keep: a violência usada a pretexto de transformações sociais. “Não se pode dizer que a causa deles não fosse justa, afinal os Estados Unidos estavam metido numa guerra injusta. O que se pode, sim, é fazer reparos aos métodos que empregam”, diz.

Uma discussão que, infelizmente, não é aprofundada no filme. Naquele estilo de Redford, correto, porém sem brilho, somos levados a conclusões bastante conservadoras a respeito do tema. Não entendemos as razões dos antigos militantes, e todos parecem bastante arrependidos, com exceção da personagem de Julie Christie, que reafirma as idéias de juventude e diz, com todas as letras, que jamais se entregaria a um sistema judicial no qual não acredita. No entanto…

Um bom filme, embora meio previsível, se você relevar todas essas incongruências.

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