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Diário de Veneza 2012 abertura

Luiz Zanin Oricchio

28 de agosto de 2012 | 20h02

VENEZA – O Fundamentalista Relutante, filme da indiana Mira Nair, abre (dia 29) a 69ª edição do Festival de Veneza, o mais antigo evento do gênero no mundo. Com o nome pomposo de Mostra Internazionale d’Arte Cinematográfica, o festival acontece desde 1921 no Lido, ilha a dez minutos de vaporeto da Veneza histórica, a dos cartões postais, com suas gôndolas, canais e ar romântico. Aura agora um tanto corrompida pela publicidade predatória e o turismo de massa é verdade. A primeira edição, não competitiva, foi sob Mussolini, e a mostra não se realizou durante os anos da guerra.

O livro que dá origem ao filme homônimo de Mira Nair, O Fundamentalista Relutante, de Mohsin Hamid, foi editado no Brasil em 2007, pela Alfaguara, e continua em catálogo. O filme, de acordo com o novo diretor do evento, Alberto Barbera, “fornece muito alimento para reflexão sobre o mundo atual”.

De fato. O enredo fala de um paquistanês residente nos Estados Unidos e dono de carreira de sucesso no mercado de capitais de Wall Street depois de se haver formado em Princeton. Isso tudo até que o atentado de 11 de setembro de 2001 o faz reatar laços que julgava rompidos com seu país. Mira Nair, que já venceu o Festival de Veneza em 2001 com seu Casamento à Indiana, é também uma pessoa entre dois países. Vive entre a Índia e os Estados Unidos.

Veneza 2012 mudou com a nova direção, mas para o Brasil continua na mesma. Dirigido por Alberto Barbera, em substituição a Marco Müller, a seleção oficial do mais antigo festival do mundo não apresenta qualquer longa-metragem do País em suas diferentes sessões – o único representante nacional é o curta O Afinador. Para o Brasil, Veneza desidratou-se mesmo em relação ao ano passado, que já não tinha qualquer representante na Mostra principal, mas apresentava pelo menos dois longas – Girimunho e História que Só Existem Quando Lembradas – em outras sessões.

Culpa do festival ou da produção nacional, que não apresenta títulos atraentes aos principais festivais do mundo? Eis aí um tema para discussão interna: a que se deve a baixa representatividade nacional em festivais como Berlim, Veneza e Cannes? Ao cinema que estamos fazendo ou ao eurocentrismo dos selecionadores? Ou há outras causas?

Enquanto pensamos no caso, Veneza, agora remodelado por Barbera, apresenta sua nova seleção. Primeira mudança: caem para 18 os títulos que competem na seção principal, Venezia 69, a que conduz ao cobiçado Leão de Ouro, a estatueta do leãozinho alado, símbolo da cidade dos Doges. Em anos recentes, essa mostra tinha 22 títulos, ou às vezes 23, porque Müller alimentava gosto por apresentar “filmes surpresa” ao longo do festival. Encurtou-se o principal e extinguiram-se sessões inteiras, como a Contracampo Italiano, repositório para os filmes da casa que não haviam encontrado espaço na mostra competitiva principal.

Enxugou-se no número e não na qualidade dos filmes de prestígio que estarão no Lido a disputar os troféus. Diga-se o que se disser, a primeira coisa que olhamos num festival são os nomes conhecidos, os grandes diretores, as grifes autorais reconhecíveis. E, neste ano, Veneza pode se gabar de ter filmes de gente como Terrence Malick (To the Wonder), Marco Bellocchio (Bella Addormentata), Takeshi Kitano (Outrage Beyond), Olivier Assayas (Après Mai), Brian de Palma (Passion) e Paul Thomas Anderson (The Master). É um belo cartel, enriquecido ainda com queridinhos de festivais e da crítica como o filipino Brillante Mendoza ((Thy Womb) e o coreano Kim Ki-Duk (Pietà). Pode-se esperar o melhor dessa turma. E, se decepcionarem, as próprias decepções tornam-se dignas de nota.

Mas não é raro que, mesmo em festivais maintream, as surpresas se imponham aos favoritos de sempre. Não sabemos o que esperar de filmes como At Any Price, de Rahman Bahrani, Betrayal, de Kiril Serebrennikov, ou È Stato Il Figlio, de Daniele Ciprì. Serão bons ou ruins? Bem, seria lícito dizer que, após passarem ilesos por uma rigorosa peneira seletiva, bombas não devem ser. Mas quem frequenta festivais não alimenta essas ilusões. Reconhece que, muitas vezes, filmes sem condições acabam despontando entre os concorrentes, não se sabe por que critérios ou obedecendo a quais interesses políticos. Às vezes até vencem.

Um desses títulos meio ignotos merece atenção especial. Linhas de Wellington, de Valeria Sarmiento, passaria despercebido em meio à seleção oficial, não fossem dois detalhes. É projeto do grande diretor chileno Raul Ruiz, que ficou inacabado com sua morte no ano passado e foi terminado por sua viúva, que vem a ser a própria Valeria Sarmiento. O filme recria a terceira invasão francesa em Portugal. O último filme de Ruiz foi o oceânico Mistérios de Lisboa (mais de 4h na versão para cinema), adaptado do folhetim homônimo de Camilo Castelo Branco.

Festival também não se faz sem polêmica e a cota de Veneza 2012 pode ser preenchida por um concorrente da casa, Bella Addormentata, de Marco Bellocchio. Baseado numa história real, essa “bela adormecida” não é bem a da fábula dos irmãos Grimm sobre a princesa enfeitiçada que só despertaria com um beijo de amor verdadeiro. Baseia-se no caso, que comoveu a Itália, da jovem Eluana Englaro, que, após um acidente de carro, permaneceu em estado vegetativo irreversível, durante quase 20 anos, mantida em vida por aparelhos. O próprio pai solicitou a suspensão da alimentação artificial para que ela pudesse morrer em paz, mas a demanda foi inicialmente negada pela justiça italiana. O caso arrastou-se.

Pode-se imaginar a polêmica travada em torno da eutanásia num país católico como a Itália e que abriga em seu território o Estado do Vaticano. Bellocchio gosta de meter a mão em vespeiro. Já abordou o caso Aldo Moro, o grande trauma político nacional, no belíssimo Bom Dia Noite, que acabou não levando o Leão em 2003, quando era tido como favorito. Quem sabe agora não é a sua vez?

Em sua entrevista de apresentação, Alberto Barbera disse que um festival tinha de ser “mais que uma passarela de celebridades”. Justo. Ao mesmo tempo, conclui que o cinema tem dois aspectos indissolúveis – arte e indústria – e, por isso, Veneza estaria inaugurando este ano um mercado de filmes para valer, a exemplo do que já tem o seu rival francês, Cannes. De fato, entre essas duas linhas se equilibra todo grande festival. Qualquer oscilação mais pronunciada em relação a uma delas pode ser desastrosa. Veremos como se comporta Veneza, às voltas com uma tentativa de modernização que não atinja sua tradição.

 

 

 

 

 

 

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