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Diário de Veneza 2011: Shame, a versão contemporânea da vergonha

Luiz Zanin Oricchio

06 de setembro de 2011 | 10h42

Shame, de Steve McQueen, lidera até agora as preferências dos críticos em Veneza. Bem, pelo menos uma boa amostra desses profissionais, que dão suas “estrelinhas” ao boletim do festival, o Venews, que circula diariamente. Nem sempre acertam no final, mas as opiniões deles tem o seu peso.

E, no caso, até que votaram bem, pois Shame (Vergonha) é um filme de qualidade, além de trazer o ator da hora (ao menos para o público feminino), Michael Fassbender. Ele faz um executivo irlandês, que trabalha em Nova York, e é viciado em sexo. Sua irmã (Carey Mulligan) não fica atrás. Enrolada com seus problemas, pede para morar com o irmão por um tempo. Os dois compartilharão suas neuroses de forma democrática.

O filme acompanha a trajetória de Brandon (Fassbender) por uma Nova York noturna, cheia de atrações e oportunidades. Sissy (Carey) é uma cantora carente e promíscua. Nada se sabe a respeito dos personagens. Apenas que a família veio da Irlanda e criou os filhos em condições precárias. “Preferi deixar na sombra o passados dos personagens para evitar psicologismos”, disse Mcqueen. De fato, o assim fica mais interessante.

Como também funciona bem o registro quase documental da Nova York noturna, uma imersão no bas-fond chique da cidade. “Poderia ter filmado em qualquer cidade grande, mas Nova York parece simbolizar como nenhuma outra esse lugar das possibilidades ilimitadas”, explica o diretor.

A ideia de base era essa mesma, e se traduz na linguagem do filme. Submeter um personagem fraco (embora na pele de um macho-alfa) a todas as tentações possíveis, até que, exaurido, ele constate a sua derrota. “É um paradoxo que Brandon enfrenta: num tempo e lugar em que pode se sentir totalmente livre, ele, no fundo, não tem liberdade nenhuma.” É isso aí mesmo. Talvez seja o paradoxo principal da vida contemporânea. Por se possuir tudo em excesso, nada tem valor; não se tem nada, de fato. É a verdadeira vergonha da nossa era, expressa no título. Não encontramos equilíbrio entre a infinita possibilidade de consumo e o limite inevitável da nossa capacidade de absorção. Tornamo-nos presas dessa liberdade. Por isso faz todo o sentido quando Steve McQueen qualifica seu filme, no qual só se vê drogas e sexo, de político.

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