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Diário de Veneza 2011: rescaldo final

Luiz Zanin Oricchio

12 de setembro de 2011 | 14h47

O Leão de Ouro a Fausto, do russo Aleksander Sokurov foi a tacada de mestre que recoloca Veneza a altura dos grandes festivais do mundo. Ao contrário do que vinha acontecendo em anos recentes, o júri presidido por Darren Aronofsky desta vez deixou filmes menores em justo segundo plano e escolheu uma obra sólida, provavelmente destinada a durar na memória dos cinéfilos e na própria história do cinema. “Foi uma escolha unânime entre os sete jurados”, disse Aronofsky em entrevista após a premiação. Não há porque duvidar. Preferências subjetivas à parte, essa livre adaptação do clássico de Goethe, em imagens oníricas que retratam um personagem ávido pelo poder, era mesmo o que havia de mais consistente na boa safra de competidores de Veneza 2011.

Menos fáceis, no entanto, devem ter sido as outras escolhas dos jurados. Afinal, se Fausto era mesmo um dos favoritos, alguns dos outros preferidos da crítica e do público, como Carnage, de Roman Polanski, e The Ides of March, de George Clooney, foram ignorados por completo. Na véspera da premiação, correu o boato de que Clooney estaria voltando para o Lido, sinal de prêmio importante a receber. Mas isso não se concretizou. Correu também que haveria um “veto” americano a Polanski por conta do processo por sedução de menores que ainda pesa contra ele nos EUA. Prudente, Polanski não veio à Itália, gato escaldado pela prisão domiciliar que sofreu na Suíça. Onde, aliás, escreveu o roteiro de Carnage (O Deus da Carnificina), interessante texto de Yasmina Reza sobre a intolerância.

O Leão de Prata, equivalente ao segundo lugar, ficou para o diretor Sangjun Cai por Ren Shan Ren Hai (People Mountain People Sea), uma produção da China e Hong Kong, que entrou na última hora a título de “filme-surpresa”. A história é a de uma vingança, com o personagem perseguindo o assassino do seu irmão de maneira implacável. Mostra um retrato não menos áspero da realidade chinesa e, de fato, é muito bem dirigido.

Já o “terceiro lugar”, a medalha de bronze, para assim dizer, foi preenchida pela cota da casa, o italiano Terraferma, de Emanuele Crialese. Era mesmo o melhor dos três filmes que a Itália colocou no concurso principal e toca numa ferida aberta do país: o problema da imigração chamada clandestina. Em belas imagens, Crialese expressa um ponto de vista humanista e lúcido sobre a questão.

 

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O reconhecimento a Fausto faz bem tanto a Veneza quanto a Sokurov. Ao dar o prêmio ao russo, a Mostra readquire uma dignidade desperdiçada nos últimos anos com filmes perecíveis. E Sokurov, no auge de uma carreira já longa, pela primeira vez é contemplado com o troféu mais importante de um grande festival internacional. Veneza e Sokurov estiveram à altura um do outro, e esse é o belo legado do júri presidido por Darren Aronofsky. É um reconhecimento que consolida uma carreira e pode tornar mais fáceis as produções dos seus filmes seguintes. Também facilitará o diálogo da obra com um público mais amplo?

Nada mais duvidoso. Fausto é um filme difícil, que não propõe qualquer amenidade para facilitar a vida ao espectador. Com seu episódio do pacto diabólico e, obviamente, uma parábola sobre o poder e sobre os acordos espúrios que se fazem na trajetória rumo ao topo. Com Fausto, Sokurov fecha sua tetralogia dedicada às figuras da política, iniciada com os anteriores Moloch (Hitler), Taurus (Lenin) e O Sol (Hirohito). Não deixa de ser significativo que, depois de retratar três figuras históricas reais do século 20, Sokurov tenha recuado a um tempo anterior em busca do personagem fictício que, de certa forma, resume na sua as trajetórias daquelas três figuras históricas.

Também não deixa de ser significativo que, depois de receber esse grande prêmio, Sokurov tenha falado ao telefone com o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin. “Conversei com ele e reiterei a necessidade de que o Estado continue a apoiar a arte e a cultura”, disse Sokurov. Aliás, seu discurso de vencedor foi todo no sentido da valorização da cultura, que não pode ser considerada perfumaria supérflua e necessita de cuidados (estatais) para não desaparecer. Conclusão: pode-se desprezar a política e os políticos, mas não se podem ignorar as figuras do poder. Afinal, elas estão aí, gostemos delas ou não. Pode-se cogitar se o próprio Putin seria a um personagem a ser considerado no futuro, caso Sokurov resolva expandir sua galeria de tipos do poder. Mas isso, por enquanto, é prematuro.

Importa mesmo é que Fausto seja reconhecido pelo que é, um grande filme, cujas diversas camadas de significado não se esgotam em uma única vez. Será preciso voltar a ele, prestar atenção em seus detalhes e conferir a visão de mundo que se espreita através de imagens tão sedutoras quanto, às vezes, repulsivas. Imagens marcantes, em todo caso, de um esteta que se apoia tanto na tradição literária como na pictórica. É um filme que mexe com a gente e esse, provavelmente, é o melhor elogio que se possa fazer a determinado tipo de cinema num tempo de indiferença.

Nas outras categorias cabem queixas quanto a um ou outro quesito. Por exemplo, o premiado roteiro Alpis talvez seja de fato engenhoso, mas passa uma frieza de todo indesejável. Talvez reflita, no subtexto, os impasses de um país de enorme tradição cultural, mas que já não sabe para onde ir. Mas é preciso forçar um pouco o dom da interpretação para chegar a isso. No todo, o filme desagradou. Já a premiação da fotografia de Whutering Heights, ousada versão da britânica Andrea Arnold para o romance de Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes, parece mais do que justa.

Os prêmios de interpretação também ficaram com seus legítimos donos: a chinesa Deanie Yip por Tao Jie (A Simple Life) e Michael Fassbender em Shame, de Steve McQueen. Deanie é de uma dignidade sem par na composição da anciã que vai para uma casa de repouso após haver servido por 60 anos uma família de Hong Kong. E Fassbender não teria papel mais adequado do que Brandon, o yuppie com compulsão pelo sexo de Shame. Estava em outro filme, A Dangerous Method, no papel de Carl Gustav Jung. Se Fassbender não vencesse, provavelmente a ala feminina do festival sairia em passeata de protesto pelas ruas do Lido.

Já o Prêmio Marcelo Mastroianni para ator ou atriz emergente teve resultado mais controverso. Foi dividido entre os adolescentes Shota Sometani e Fumi Nikaidô, pelo trabalho em Himizu, de Sion Sono, do Japão. O filme é irritante, e muito em função da atuação gritada da dupla vencedora. Mas também há que se destacar que é a primeira obra ficcional japonesa após o terremoto, seguido de tsunami e acidente nuclear em Fukushima. Tem seu valor pela atualidade e mensagem de que o país tem tudo para se reconstruir. Essa premiação reflete o que foi o trabalho do júri: em parte estético e, em parte, político. Escolhe o melhor filme, não esquece um representante da Itália, premia generosamente os países asiáticos, xodós do festival e defende as boas causas – no caso, o grito (literal) de esperança de um país ferido por uma catástrofe natural.

O júri só não foi político com os Estados Unidos, que chegaram com uma força-tarefa de cinco concorrentes e saíram de mãos abanando. Aronofsky, como notaram alguns analistas italianos, se comportou como é de hábito entre os presidentes de júri norte-americanos, que se colocam preventivamente acima de qualquer suspeita de patriotada e não puxam a brasa para os filmes do seu país. A exceção foi Quentin Tarantino que, no ano passado, premiou a ex-namorada Sofia Coppola na maior cara dura.

No balanço geral, deve ser reconhecida a boa qualidade de uma mostra que teve 23 competidores bem escolhidos, com duas ou três exceções. Nas paralelas e fora de concurso também houve do bom e do nem tão bom assim, para ser ameno. Para compensar o lamentável e kitsh W.E., de Madonna, houve coisa fina como o magnífico La Folie Almayer, de Chantal Akerman, e o pungente Il Villaggio di Cartone, do veterano mestre Ermano Olmi. Alguém já disse que um festival é uma ilha de filmes cercada de bobagens por todos os lados. Quando essa ilha tem solo fértil, todo o resto se perdoa. No caso de Veneza 2011 o saldo foi amplamente positivo.

 

Principais prêmios:

Leão de Ouro (melhor filme): Fausto, de Aleksander Sokurov (Rússia)

Leão de Prata (melhor direção): Sangjun Cai por Ren Shan Ren Hai (People Mountain People Sea) (China, Hong Kong)

Prêmio Especial do Júri: Terraferma, de Emanuele Crialse (Itália)

Coppa Volpi melhor ator: Michael Fassbender por Shame, de Steve McQueen (Grã-Bretanha)

Coppa Volpi melhor atriz: Deanie Yip por Tao Jie (A Simple Life), de Ann Hui (China, Hong Kong)

Prêmio Marcello Mastroianni (jovem ator ou atriz emergente): Shôta Sometani e Fumi Nikaidô, em Himizu, de Sion Sono (Japão)

Osella para melhor fotografia a Robbie Ryan por O Morro dos Ventos Uivantes, de Andrea Arnold (Grã-Bretanha)

Osella para melhor roteiro a Yargos Lanthimos e Efthimis Filippou pelo filme Alpis, de Yorgos Lanthimos (Grécia)

Prêmio Leão do Futuro (para diretores estreantes): Lá-Bas, de Guido Lombardi (Itália)

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