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Diário de Veneza 2011: Por quem ruge o Leão

Luiz Zanin Oricchio

10 de setembro de 2011 | 07h09

Os dois últimos concorrentes, ambos de gênero policial, não ajudam a dissipar as dúvidas sobre a destinação do Leão de Ouro. Agradáveis ambos, nem Life Without Principle, de Johnnie To, nem Texas Killing Fields, de Ami Canaan Mann, parecem disputar qualquer dos prêmios do 68.º Festival de Veneza, que serão distribuídos hoje à noite, no Palazzo del Cinema, no Lido.

Johnnie To é fluente como sempre nessa história que mistura gangues de Hong Kong com especulação em bolsa de valores. De certa forma, To nos diz que, comparado ao cassino global da especulação financeira, a ação do crime organizado chega a ser brincadeira de criança. Arma essa reflexão com personagens simples, que enfrentam situações complexas, maiores que eles próprios.

Uma empregada de banco é promovida e agora se vê obrigada a empurrar aos clientes investimentos de alto risco para atingir metas da empresa. Um policial vive assoberbado por problemas de dinheiro quando a noiva deseja comprar um apartamento de alto nível. Um gângster menor envolve-se com especulação em bolsa para levantar a grana da fiança de um amigo. Enquanto isso, a Grécia vai para o buraco e ameaça levar consigo a economia mundial.

O mérito de To é articular essas linhas todas de trama em sua narrativa rápida e límpida. Funciona, mas, claro, nada vai muito fundo. Vale como boa diversão, sobretudo porque o diretor não exibe qualquer intenção de ser “autoral”.

O mesmo não se pode dizer de Ami, filha do diretor Michael Mann. Seu desejo é fazer um filme com claros acenos ao público tido como mais culto e, ao mesmo tempo, não perder a dimensão popular do gênero. Por exemplo, inclui uma preocupação religiosa na figura de um dos tiras que investigam os crimes, angustiado com o problema da existência de Deus diante da evidência do Mal. Por outro lado, Ami flerta com os cacoetes esperados, como a dupla de policiais com personalidades contrastantes, perseguições de automóveis, etc. Agradável, é. A única coisa que as pessoas se perguntavam na saída era por que diabos teria sido escolhido para competir?

Desse modo, as apostas convergem mesmo para Fausto, de Sokurov, que impressionou a maior parte da crítica e tem elementos favoráveis para ganhar um festival de prestígio. Em primeiro lugar, é muito bom mesmo, e traz uma meditação contemporânea sobre o delírio na busca pelo poder. A desconfiança mundial com a política e os políticos (pensam que é só no Brasil?) pede, por paradoxo, uma reflexão política. E é o que faz Sokurov, usando um dos clássicos da literatura universal como fonte de inspiração. Depois, não se pode acusá-lo de ter feito uma adaptação careta e submissa à obra original. Pelo contrário, este Fausto é inventivo, ambíguo, e suficientemente complexo para pedir uma revisão, pois não se esgota na primeira vez em que é visto. Seria um prêmio que dificilmente alguém contestaria muito a sério.

Há os mais palatáveis The Ides of March, de George Clooney, e Carnage, de Roman Polanski, apresentados lá no início da competição e que ganharam força ao longo do festival. São ambos dignos. Clooney é um queridinho de Veneza e Polanski, um autor reconhecido em todo mundo.

Nos últimos dias cresceu o falatório em torno de Tao Jie (Uma Vida Simples), de Ann Hui, drama delicado, no fundo bastante convencional, porém dirigido e interpretado com dignidade. É a história de uma mulher que serviu a mesma família durante 60 anos até retirar-se para um asilo. Se Fausto parecer radical demais, o jeito é ir de Tao Jie.

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