As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário de Veneza 2011: Para começo de conversa

Luiz Zanin Oricchio

31 de agosto de 2011 | 07h39

Antes de ver os filmes não dá para saber se Veneza, que começa hoje com The Ides of March, de George Clooney, conseguirá superar a magnífica safra de Cannes, que apresentou duas obras-primas em concurso, A Árvore da Vida, de Terrence Malick, e Melancolia, de Lars von Trier. Mas que a 68ª mostra veneziana, a mais antiga do mundo, promete, isso ninguém há de negar. Pelo menos é o que se pode deduzir pelos nomes respeitáveis que trazem seus novos filmes para o Lido.

Entre os mais notórios, podem-se citar David Cronenberg com A Dangerous Method, Abel Ferrara com 4:44 Last Day on Earth, William Friedkin com Killer Joe, Philippe Garrel, com Un Été Brulant, Roman Polanski com Carnage, Aleksander Sokúrov com Faust. Todos eles conhecidíssimos, ou premiados e membros do panteão do cinema de autor no mundo. Que mais Veneza poderia querer?

Talvez uma seleção italiana forte, mas aí talvez fosse pedir demais, pelo menos se levando em conta o que se tem visto nos últimos anos. Em todo caso, como esperar não custa, são três os concorrentes peninsulares este ano, dois deles pelo menos já conhecidos do cinéfilo mais atento: Cristina Comencini, que apresenta Quando la Notte, e Emmanuelle Crialese, com Terraferma. Fecha a trinca Gian Alfonso Pacinotti com L’Ultimo Terrestre.

Em falta de nomes fortes no presente, o cinema italiano se lembra de grifes do passado – como é o caso do grande Marco Bellocchio, que recebe um Leão de Ouro pela carreira das mãos de outro cineasta de mesmo porte, Bernardo Bertolucci. É, também, um mea culpa de Veneza, que não tem tratado Bellocchio como ele merece. Apresentando em 2003 seu maravilhoso Bom Dia, Noite, sobre os bastidores do caso Aldo Moro, perdeu para o russo O Retorno.

Ano passado, Bellocchio esteve de novo no Lido mostrando, em seção paralela, todo o frescor de um filme intimista como Sorelle Mai, rodado com sua própria família, em sua cidade natal, Bobbio, na Emilia Romagna. Ninguém lhe deu muita bola. De modo que o Leão de Ouro pela carreira de um dos últimos mestres do cinema em atividade parece mais do que justo: é fundamental para uma cinematografia que já foi grande e decaiu, como a italiana.

No mais, a seleção de Veneza-68 apresenta o padrão clássico imposto pelo diretor da mostra Marco Muller desde que assumiu o cargo em 2004: ao lado da predominância europeia (afinal, trata-se de um festival europeu), Veneza terá muitos norte-americanos e muitos asiáticos. Os primeiros são tidos como indispensáveis a qualquer festival, pois fornecem a indispensável aura hollywoodiana, mesmo que venham sob a forma do cinema independente. Os segundos fazem parte da cota particular do diretor, sinólogo de formação e apaixonado pelas coisas do Oriente. Muller está, há muitos anos, intimamente convencido de que a renovação cinematográfica virá da bandas oriental e não da ocidental. Daí a ênfase da sua curadoria, que não deixa também de ter um sabor geopolítico nesta hora de ascensão da China e crise econômica mundial.

Muller sabe também que sua receita de cinéfilo deve ser administrada em conta-gotas – e ao longo de todo o festival. Para abrir o evento, escolheu nome e rosto dos mais conhecidos: George Clooney, amado na Itália, que revela, mais uma vez, sua faceta de diretor com The Ides of March. Traz consigo uma penca de astros do cinema independente como Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti e Marisa Tomei. Clooney já havia participado de Veneza, na condição de cineasta, com seu Boa Noite, e Boa Sorte, evocação dura e sem rodeios da época do macarthismo, sob a ótica do jornalismo televisivo. O pai de Clooney era jornalista e sofreu com a caça às bruxas dos anticomunistas americanos.

A presença do astro americano não será a única atração da passarela do Lido. Vários outros lá estarão, garantindo ao festival a visibilidade midiática que os patrocinadores exigem. Afinal, parte da conta de Veneza é paga pelo Estado italiano e parte pelas marcas famosas de carros, celulares e perfumes, que gostam de associar suas imagens ao suposto glamour do cinema. E este glamour, no imaginário do planeta, vem, especialmente, dos figurões de Hollywood. Desse modo, as majors, como são chamados os grandes estúdios americanos, mesmo não competindo, ajeitam as coisas para que seus filmes lá estejam, fora de concurso, em sessões especiais, e que as celebridades que deles fazem parte compareçam para dar entrevistas aos jornalistas e acenos aos fãs.

Nessa condição, uma das presenças mais esperadas do Lido será a popstar Madonna, que apresenta seu filme W. E., sobre os amores do Rei Edward VIII e a divorciada americana Wallis Simpson. Quem assistiu ao Discurso do Rei sabe que este caso de amor está na origem da ascensão do rei gago ao trono. No caso de Madonna, o filme é o de menos. Se for bom, ótimo. Se não for, paciência. Ela vindo, tudo resolvido. E, claro, pensando pelo lado da estrela e do seu estafe, não se pode desprezar um evento como o de Veneza, que reúne mais de três mil profissionais (bem, alguns não tão profissionais assim) de imprensa do mundo todo.

Enfim, o circo está montado. Divas e astros consagrados, estrelinhas ascendentes, candidatos e candidatas a alguns minutos de fama, jornalistas e tietes – todos reunidos contribuem para dar ao Lido de Veneza um ar frenético durante os 11 dias do festival. Tudo gira em torno de uma multidão de interesses e seria ingênuo dizer que o cinema seja a motivação principal da maior parte dos que lá estarão. Pelo contrário: há muito frenesi em torno do nada, muita badalação sem consequência e frescuras mil. Mas, se os filmes forem bons, tudo se compensa no final. Porque, apesar das aparências em contrário, os filmes ainda são o prato principal de um festival de cinema.

Tudo o que sabemos sobre:

Festival de Veneza 2011

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: