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Diário de Veneza 2011: Fausto, um estudo sobre o poder

Luiz Zanin Oricchio

09 de setembro de 2011 | 08h37

Talvez tenha surgido o grande filme de Veneza 2011 – Fausto, de Alexander Sokurov, sério candidato ao Leão de Ouro. Isso não significa que o júri, presidido por Darren Aronofsky, o reconheça como tal. Mas este é outro problema. O filme, versão muito particular da obra monumental de Goethe, é estupendo, exemplo de como afrontar um texto clássico sem deformá-lo, mas também sem se intimidar por ele. Sokurov o recria, essa é a verdade, e o faz no interior de um universo estético já reconhecido pelos apreciadores do seu cinema.

Além do mais, nada tão significativo quanto encerrar sua tetralogia do poder com este personagem. Fausto fecha a série de filmes dedicados a figuras do poder – Adolf Hitler em Moloch (1999), Lenin em Taurus (2000), Hirohito em O Sol (2005). As três primeiras são figuras históricas, “recobertas” pela última, ficcional e mítica, representando o desejo supremo de poder e a aceitação do pacto demoníaco para obtê-lo. O mito do Fausto inspirou inúmeras peças da arte ocidental, entre as quais duas obras-primas da literatura, Doktor Faustus, de Thomas Mann, e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Depois de atravessar uma cena literalmente insuportável, a dissecação de um cadáver, o espectador é introduzido na trajetória do Dr. Fausto em busca do pacto que lhe abrirá certas portas fechadas para o comum dos mortais. De acordo com Sokurov, sua intenção era recriar o ambiente no qual o personagem faz seu pacto: opressivo, escuro, nauseante às vezes, cheio de odores corporais, sujeira, céu baixo, uma sensualidade tão reprimida quanto à flor da pele. Algo próximo de um inferno. O seu Mefistófeles é, ele próprio, um ser em sofrimento; coxeia, sofre de deformidades físicas, tem o abdômen inchado e vive às voltas com problemas estomacais e flatulências. É o cão.

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