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Diário de Veneza 2011: Al Pacino: o poderoso Herodes

Luiz Zanin Oricchio

05 de setembro de 2011 | 08h51

O capo Al Pacino vira Herodes e desembarca no Lido para apresentar seu novo trabalho como ator e diretor, Wilde Salome. O filme poderia ser definido, de modo aproximado, como uma espécie de making of da peça Salomé, de Oscar Wilde, montada e dirigida pelo próprio Pacino nos Estados Unidos. O intérprete de Michael Corleone em O Poderoso Chefão veio também receber um prêmio especial por sua carreira, o troféu Glória ao Cineasta, dedicado àqueles que deixaram uma marca na história do cinema. Já o receberam Takeshi Kitano, Abbas Kiarostami, Agnès Varda e, sim, Sylvester Stallone, além de Mani Ratnum, este outorgado o ano passado.

O filme começa com um jogo de palavras Wild Salomé, a letra E aproximando-se aos poucos de Wild (Selvagem) até formar o nome Wilde, o autor da peça. Será esse o caráter da personagem Salomé, figura feminina do desejo selvagem. É também o sentido da direção de Pacino, que interpreta Herodes, o rei que cai na sedução de Salomé e, a pedido da bela, manda cortar a cabeça de João Batista. A história é conhecida. Herodes pede que sua enteada Salomé dance para ele, podendo em troca, exigir o que deseja. Ela desdenha todas as fortunas do reino, mas pede a cabeça de João Batista, o profeta, mantido prisioneiro num poço. Por quê? Porque se apaixonou por ele e foi esnobada. Como se sabe, não existe fúria maior na Terra que a de uma mulher rejeitada.

Ambicioso, o filme registra não apenas a construção da peça, mas envereda para uma pesquisa sobre a vida de Oscar Wilde, trágica por sua prisão no caso com Lord Alfred Douglas. O affair é um clássico da intolerância com a diversidade sexual, mas sugere-se que eram os escritos políticos de Wilde, de matiz socialista, que realmente incomodavam a sociedade inglesa. “A ideia era criar algo que pudesse revelar coisas inclusive sobre mim, como alguém que tenta afrontar o processo de fazer teatro ou cinema”, diz Pacino.

O caráter quebradiço do filme, que revela ser um working in progress, reflete exatamente seu processo de construção: “Levei muito tanto tempo para este filme. É que eu não sabia para onde estava andando. Trabalhei muito, depois parei cinco meses e tive uma iluminação de como deveria fazer. Cinema é como a pintura, você precisa se distanciar para ver o quadro em seu todo”, diz o ator, cabeludo aos 70 anos, com sua voz rouca de Padrino.

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