Diário de Veneza 2010: Miral, ou o Oriente Médio na tela
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Diário de Veneza 2010: Miral, ou o Oriente Médio na tela

Luiz Zanin Oricchio

04 de setembro de 2010 | 07h26

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Com Miral, de Julian Schnabel, surgiu em Veneza o filme obrigatório sobre o conflito árabe-israelense. “Obrigatório”, porque os festivais internacionais montam suas seleções muito em função dos temas contemporâneos, aqueles que, pela urgência internacional, se veem refletidos pela arte cinematográfica. Desse modo, assuntos como a crise sem fim no Oriente Médio, a guerra no Iraque, a fome na África etc. são presenças certas nas mostras do Primeiro Mundo. Quem acha que os filmes são selecionados apenas por sua qualidade estética dá provas de uma ingenuidade sem tamanho. Dito isso, deve-se reconhecer que Miral é um filme simpático, cheio de boas intenções, embora seja, ele próprio, um bocado inocente também.

Schnabel (Antes que Anoiteça, Basquiat, O Escafandro e a Borboleta) é chegado às nobres causas, embora nem sempre consiga colocá-las em roupagem cinematográfica conveniente. Mas sabe narrar. E, desse modo, consegue contar essa história exemplar de modo correto. Miral, o filme se incumbe de esclarecer, é uma daquelas florzinhas simpáticas que brotam à beira das estradas. Qualquer um já as viu. Existem em toda a parte e, portanto (esta é a metáfora) todos as conhecemos, embora prestemos pouca atenção a elas. Misral é o nome de uma garota palestina, a protagonista da história, que começa por contá-la em voz off. Ela própria nasceu nos anos 1970, mas, para contar sua vida, deve retroceder a 1948, ano da criação do Estado de Israel.

O filme é adaptado do romance homônimo escrito por Rula Jebreal, palestina radicada na Itália. Conta a história da jovem palestina, dividida entre a Intifada e o ensino de crianças, ao qual se dedica. Tudo toma a forma de um romance histórico, que atravessa várias épocas, da fundação de Israel ao acordo de Oslo (1993), jamais posto em prática. Há toques de aventura e idealismo e o diretor (assim como, se supõe, o livro) toma partido em favor dos palestinos, embora fique no muro ao homenagear aqueles que lutam pela paz, de ambos os lados. Tem qualidades, embora não seja de molde a empolgar. Como é politicamente correto, deve bombar na sessão oficial.

Os outros dois concorrentes também exibidos não chegaram a empolgar – o japonês Norwegian Wood, e o italiano La Pecora Nera. A produção japonesa Norwegian Wood, uma adaptação do livro de Haruki Murakami, é dirigida pelo franco-vietnamita Tran Ahn Hung, de O Cheiro da Papaia Verde. Quem se lembra desse belo filme, recorda-se também do estilo de Hung – lento, planos caprichados, esticando o tempo. É assim também nessa desoladora história de amor juvenil. Um rito de passagem, belo, porém às vezes um tanto arrastado. Talvez cresça quando visto for a de um contexto de festival que, como se sabe, é a pior situação para se ver um filme.

Já o italiano La Pecora Nera (A Ovelha Negra) não deve crescer em qualquer contexto que seja. Nessa história do personagem que vive em um manicômio, o italiano Ascanio Celestino não poupa criatividade. Tenta expressar o que vai pela mente de um internado, sem recorrer a qualquer teoria externa. Na terra do psiquiatra antimanicomial Franco Basaglia, Ascanio despolitiza a questão e dá a ela a força de um depoimento bruto, porém muitas vezes confuso e repetitivo, embora não careça de inventividade e alguns momentos de emoção. É sua estreia como diretor de longas-metragens.

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