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Diário de Veneza 2010: Hoje é dia de Leão

Luiz Zanin Oricchio

11 de setembro de 2010 | 11h24

Dificilmente os últimos três filmes exibidos mudam o panorama da premiação em Veneza, mas nunca se sabe. São eles o interessante metafilme Road to Nowhere, de Monte Hellman; Drei, do alemão Tom Tykwer; e Barney’s Version, de Richard J. Lewis.

Deles, o mais autoral é o de Hellman, que volta à direção depois de 22 anos ausente. Um jovem diretor é convencido a fazer um filme sobre um caso criminal real e vê-se em meio a um jogo de espelhos em que representação remete para o real e vice-versa. É engenhoso embora o recurso ao metafilme (o filme dentro filme) às vezes pareça um tanto abusivo. Cheio de referências (inclusive a Hitchcock), Road to Nowhere coloca o espectador num labirinto. Qualidade à parte, deve-se recordar que Monte Hellman foi o produtor que lançou o jovem Tarantino, hoje consagrado e presidente do júri em Veneza.

Drei mostra Tom Tykwer em seu estilo preciso, às vezes pensado demais – o que lhe traz certa frieza. É conhecido aqui em Veneza desde que apresentou seu Corra, Lola, Corra, em 1998. Aqui é a história de um triângulo amoroso, cheio de simetrias, pois os dois homens transam com a mesma mulher e, entre si, mantêm algo mais que uma bela amizade. Não deixa de ser interessante, não deixa de ser libertário, é bem construído e tudo o mais. Talvez muito limpinho e artificial, acaba por se esterilizar.

Já Barney’s Version, de Richard J. Lewis, é cinema comercial de qualidade, com a grife Paul Giammatti, ator indie por definição. Ele é Barney Panofsky, que enfrenta uma acusação de homicídio e vê sua vida passar em flashback, inclusive sua grande história de amor por Miriam (Rosamund Pike). Dustin Hoffman, como pai de Barney e policial aposentado dá show com seu personagem meio cafajeste e engraçado. Feito em tom satírico e auto-irônico, Barney’s Version desaba depois para uma feitura melodramática próxima do piegas.

A mudança de registro não lhe faz bem. É um bom programa. Aquela atração de qualidade para o sábado à noite, papo com amigos, comer uma pizza depois etc. A pergunta que não pode calar é: o que faz na competição de um festival como Veneza, do qual se espera aquele algo mais do cinema?

Desse modo, se não houver grande surpresa, o Leão de Ouro deverá ficar entre alguns dos favoritos apontados até agora. Isto é, entre o russo Ovsyanki, o chileno Post Mortem, o chinês Detective Dee – este tido como aquele que pode conciliar exigências “artísticas” de alguns jurados e o gosto pessoal do presidente do júri.

Há quem fale em outro chinês, La Fossé, pela importância da sua denúncia política na China dos anos 1960. É o que estaria mais próximo de uma unanimidade da crítica, segundo a votação do boletim da Variety. Já Detective Dee aparece como o favorito do público, na votação online.

Os quatro italianos participantes (La Pecora Nera, La Passione, Noi Credevamo e La Solitudine dei Numeri Primi) devem passar longe do Leão e beliscar talvez um ou outro prêmio secundário. A Itália não vence o seu festival desde 1998, quando Gianni Amelio ganhou como Cosí Ridevano.

As minhas estrelinhas.

Aí embaixo, você encontra as minhas cotações dos filmes que vi ao longo do festival.

Competição

Black Swan: **
Norwegian Wood: ***
La Pecora Nera: **
Miral: **
Happy Few: **
Somewhere: ***
Ovsyasnki (Silent Souls): ****
La Passione: **
Potiche: ***
Post Mortem: ****
Meek’s Cutoff: **¹/²
Detective Dee: **¹/²
Essential Killing: ***
La Fossé: **¹/²
Promises Written in Water: *
Balada Triste de Trompeta: ***
Noi Credevamo: ***
Attenberg: **
Vênus Negra: ***
13 Assassinos: **
La Solitudine dei Numeri Primi: ***
Drei: **
Road to Nowhere: ***
Barney’s Version: **¹/²

Outras seções

Profumo di Donna: *****
Vittorio Racconta Gassman – una Vita da Mattatore: ***
Guest: ****
A Letter to Elia: ****
Jianyu (Reino dos Assassinos): **
Sorelle Mai: ****
Lope: **

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