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Diário de Veneza 2010: Filme “surpresa” é o chinês Le Fosse

Luiz Zanin Oricchio

06 de setembro de 2010 | 06h09

De uns anos para cá, Veneza tem mantido a fórmula do filme surpresa. Quer dizer, um dos concorrentes é revelado apenas no dia de sua projeção. Só que o filme surpresa deste ano nada teve de surpreendente. Pelo menos para quem havia comprado o catálogo no primeiro dia de festival e visto uma página solta com o título chinês Le Fosse.

A pista era mais do que significativa, inclusive porque o diretor do festival, Marco Muller, é completamente obcecado pelo cinema oriental, de modo amplo, e, em particular, pelo cinema da China. Gosta tanto do cinema chinês como despreza o cinema latino-americano, que quase não tem vez por aqui. Não deu outra. Era ele, Le Fosse, a “surpresa”, o segredo de Polichinelo de Veneza 2010, um relato duro sobre campos de “reeducação” política na China comunista de 1960.

Foi uma manhã indigesta para os festivaleiros. A partir de 8h30 da matina, ver gente na miséria total, penando no deserto de Gobi, alimentando-se de ervas e ratos, e chegando ao canibalismo para sobreviver não chega a ser dos programas mais cativantes. O diretor Wang Bing não poupa nada ao espectador. Usa planos longos e fixos para documentar a miséria dos condenados.

Não escapa ao rotineiro neste tipo de filme, por mais que a denúncia seja válida, importante, etc… Há um momento de grandeza, quando a mulher de um dos condenados vai ao campo, e, sabendo que o marido morreu, tenta desenterrar o corpo para lhe dar um funeral digno. É uma espécie de Antígona contemporânea.

Mas isso logo passa e o filme recai no de sempre.

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