Diário de Veneza 2010: A Letter to Elia, Kazan por Scorsese
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Diário de Veneza 2010: A Letter to Elia, Kazan por Scorsese

Luiz Zanin Oricchio

04 de setembro de 2010 | 12h57

a letter to elia (5)

Vocês pensam que festival de cinema é fácil, né? Gente civilizada, vendo filmes numa boa etc. Ledo e ivo engano. Para entrar no documentário A Letter to Elia, de Martin Scorsese, tivemos (eu e mais alguns brasileiros) de enfrentar uma multidão, empurra-empurra e bate boca. A sala estava lotada (e olhe que são mais de mil lugares) para assistir a esse acerto de contas entre Marty e seu mestre, Kazan. Entrei no cinema suado como se tivesse corrido uma meia-maratona. Porém feliz, porque pressentia que iria valer a pena. E valeu. Caso este doc. pintar no Brasil, não percam. É biscoito fino.

Scorsese monta pontos de identificação com o cineasta – em particular por este conhecer muito bem o mundo dos imigrantes, dos que foram “fazer a América”, vindo dos quatro cantos do mundo. Ele conta que via os filmes de Kazan e reconhecia os rostos – eram os dos seus vizinhos, de gente que ele via pelas ruas, falando e comendo do jeito que ele conhecia. Mostra sequências enormes dos filmes – Sindicato de Ladrões, Um Bonde Chamado Desejo, América, América. Conta que entrava no cinema e deixava que a emoção fluisse. Apenas depois, quando queria fazer os seus próprios filmes, começou a estudá-los do ponto de vista da forma. O que tinham aqueles filmes para tê-lo tocado tão fundo? É o que todos nós, sem sermos Scorsese, nos perguntamos quando saímos de uma sala depois de uma sessão particularmente emocionante. Grandes filmes nos reviram por dentro. E queremos saber por que.

Pensam que Scorsese esconde o tema da delação em Kazan? Não. Ele relembra o episódio. Kazan depôs duas vezes no Comitê de Atividades Antiamericanas. Na primeira, não apontou ninguém; na segunda dedurou como esquerdistas oito pessoas que haviam trabalhado com ele no teatro. Diz Scorsese que muitos outros tiveram esse tipo de atitude e sobre elas não recaiu qualquer culpa posterior. Kazan foi tratado como pária durante muito tempo. “Ele escreveu um artigo no New York Times justificando seu ato pelo horror ao totalitarismo comunista”, diz Martin. Foi pior. Ficou marcado.

O filme coloca esses fatos, mas não os julga ou sequer comenta, a fundo. É uma opção. Ignorá-los seria uma lacuna indesculpável. Comentá-los em profundidade, talvez fosse uma traição ao mestre que Scorsese não estava disposto a cometer. Sua dívida para com o diretor é – assumidamente – grande demais para julgá-lo politicamente. Mesmo porque, como diz, os filmes mais significativos da obra de Kazan foram feitos após a delação.

Um homem é um enigma. Podemos discutir suas opções morais, em determinados momentos da história – e o macarthismo foi um dos mais obscuros da história democrática americana. Mas como emitir julgamentos definitivos e sumários quando não partilhamos o mesmo tempo e os mesmos sentimentos? É o que parece mostrar Scorsese nesse filme tão terno e agradecido quanto inspirado.

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