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Diário de uma Busca: a tragédia de uma geração

Luiz Zanin Oricchio

26 de agosto de 2011 | 11h30

Um dos mais obscuros casos policiais de Porto Alegre não é exatamente um caso policial. Ou, pelo menos, não se resume a esse gênero da crônica jornalística. É o que descreve a diretora Flavia Castro em seu Diário de Uma Busca. O que busca Flavia e por que motivo “anota” essa procura sob a forma de documentário? Em primeiro lugar, busca resgatar a memória do pai, o jornalista Celso Afonso Gay de Castro, um dos mortos no episódio.

A outra pessoa, que perdeu a vida na mesma ocasião, foi o amigo de Celso, Nestor Guimarães Herédia, economista formado na Bélgica. Ambos haviam sido militantes de esquerda durante os anos do governo militar. Lutaram contra a ditadura. Morreram, ou foram mortos, em 1984, no apartamento do alemão Rudolf Goldbeck, cônsul honorário do Paraguai em Porto Alegre, e que teria sido oficial nazista.

A polícia concluiu que a dupla invadiu a residência para assaltar. Surpreendidos pelos policiais, e vendo que seria impossível escapar, os dois teriam se suicidado no interior da casa. A versão não cola, na opinião de vários especialistas, inclusive na de um legista que diz nunca ter visto suicidas se comportarem dessa maneira. E aqui aparece a segunda das intenções de Flavia – resgatar a verdade do caso.

Acontece que, para reconstruir as circunstâncias desse desfecho trágico, Flavia faz um desvio que engloba sua própria memória de filha de militante político. E nessa digressão reside todo o encanto e também a emoção desse filme muito especial.

Flavia monta as peças desse retrato em família, em primeiro lugar através de conversas com parentes. A avó, a mãe (Sandra Macedo), o irmão Joca, uma filha de outro casamento do pai. Segue as pistas do exílio, com passagens pelo Chile, França, Venezuela. Busca traços nas casas que habitaram, em colégios por onde passaram e embaixadas onde se abrigaram. Conversa com companheiros de militância de Celso, alguns bem conhecidos como o ex-ministro Marco Aurélio Garcia, o historiador Daniel Aarão Reis, o então líder estudantil Jean Marc Von der Weid, segundo marido de Sandra e, portanto, padrasto de Flavia e Joca.

Outra peça importante é a correspondência de Celso. As cartas revelam como a vitalidade em determinado período se alterna com o desânimo em outro. De volta ao Brasil com a Anistia, Celso parece não se adaptar a um cotidiano de cinzenta normalidade. Trabalhando como jornalista e assessor parlamentar, tinha problemas com álcool e drogas. Talvez sentisse falta de algo maior por que lutar. Talvez. Mas tudo isso é tão misterioso quanto o crime da Rua Santo Inácio, situada no bairro chique de Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

Diário de Uma Busca, ao retraçar essa trajetória pessoal, faz o retrato da tragédia de uma geração. O olhar da filha, orientado pela disposição férrea em ir até o fundo dos fatos, empresta à história a ternura que só a faz mais pungente, e significativa.

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