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Diário de Paulínia Uma noite muito especial

Luiz Zanin Oricchio

21 de julho de 2010 | 12h35

O documentário Uma Noite em 67 salvou a lavoura em Paulínia na seção competitiva de segunda-feira. O filme, dirigido pelos estreantes Ricardo Calil e Renato Terra, foi muitíssimo bem recebido pelo público que lotava o Theatro Municipal, com seus 1.300 lugares tomados. O filme evoca uma famosa noite em que se deu a final do Festival da Record, que redefiniria os rumos da música brasileira. A galera aplaudiu muito, durante a projeção e no final, quando subiram os créditos. E foi bom que tenha aproveitado a primeira parte da sessão porque o que viria a seguir seria a “comédia romântica” Dores & Amores, de Ricardo Pinto e Silva.

Uma Noite em 67 tem bons motivos para cativar o público. Em primeiro lugar, as músicas e os personagens, em si mesmos, já seriam suficientes para despertar entusiasmo. “Nós nascemos depois daquele tempo, mas o filme foi feito com pessoas que admiramos muito”, disse Calil. E quem são essas pessoas? Ninguém menos que Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Edu Lobo, protagonistas daquela noite final. As músicas: Alegria, Alegria; Domingo no Parque; Roda Viva e Ponteio. É pouco ou quer mais? O filme mostra longas sequências do desfecho do festival, entremeadas com cenas de bastidores. Traz, também, entrevistas contemporâneas com os protagonistas daquela incrível noite do passado.

Claro que as figuras são carismáticas, as músicas, maravilhosas e o ambiente, inspirador. Mas é importante que os realizadores tenham encontrado um eixo orgânico em torno do qual montar todo aquele material. Afinal de contas, naquela noite, simbólica da era dos festivais, várias coisas se decidiam no País. Conforme declaração de Solano Ribeiro, era apenas para ser um show, um bom programa de televisão, mas o festival acabou por se tornar algo maior, uma espécie de leito de rio onde águas mais profundas foram desaguar. A saber, um clima de insatisfação política com a ditadura militar e uma cisão muito particular no interior da música brasileira – a cisão entre as correntes “tradicionalistas” (Edu e Chico) e as que defendiam o diálogo com a cultura pop (Gil e Caetano). Em confronto, duas formas de representar o País e enfrentar aquele momento histórico. Tudo isso está no filme, embora não de maneira didática. “Não ser didático, com alguém ‘explicando’ tudo para o espectador, foi uma das nossas principais preocupações”, disse Calil. “As pessoas são inteligentes o suficiente para tirar suas conclusões”. A julgar pela reação da plateia em Paulínia, ele está absoltumente certo.

Já a comédia romântica Dores & Amores revelou-se antes uma comédia de equívocos. Juntar uma equipe de belas mulheres e rapazes, confrontá-los com o tema, digamos, intemporal do relacionamento, nada disso é suficiente para gerar um bom filme. As subtramas são rasas e não conseguem se encaixar num todo coerente. O visual sobrecarregado, cheio de recursos gráficos dispensáveis, não ajuda. Acima de tudo, não tem graça, na quase totalidade do seu tempo, o que, para uma comédia, ou algo que se pretenda a tanto, é fatal.