Diário de Paulínia: Malu de Bicicleta e Programa Casé
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Diário de Paulínia: Malu de Bicicleta e Programa Casé

Luiz Zanin Oricchio

22 de julho de 2010 | 09h04

FICÇÃO _ Malu de Bicicleta _ andando de bicicleta

Com o documentário Programa Casé e a ficção Malu de Bicicleta, o Festival de Paulínia teve uma boa sessão na noite de terça-feira. O primeiro resgata a figura de Ademar Casé, pioneiro do rádio e do show biz no Brasil. O segundo é uma divertida comédia romântica, que fala de relacionamentos amorosos com graça e sensibilidade, com roteiro baseado no romance homônimo de Marcelo Rubens Paiva. Luiz (Marcelo Serrado) é um empresário mulherengo até ser atropelado (no sentido literal e no metafórico) por uma bela ciclista, a tal Malu (Fernanda de Freitas). A partir de então, passa a ser consumido pelo ciúme. Bons diálogos, elenco afiado, humor sutil – eis aí os elementos que tornam muito agradável ver este filme de Flávio Tambellini.

Casé – você conhece esse nome através da atriz epresentadora Regina Casé, da TV Globo. Ela é neta de Ademar Casé e mulher do diretor do filme, Estevão Ciavatta. Esteve em Paulínia para debater o filme, mesmo porque participa dele falando do avô. E quem foi esse avô da Regina? Um homem pobre, porém cheio de energia, que nasceu no interior de Pernambuco, passou fome no Recife e resolveu tentar a sorte no Rio de Janeiro. Acabou por se aproximar de um meio de comunicação nascente, o rádio, que iria ter profunda importância na formação da cultura popular brasileira, da música em particular. Pelo Programa Casé passaram nomes como Dorival Caymmi, Noel Rosa e Carmem Miranda. Casé também veiculou os primeiro jingles e ganhou muito dinheiro. Quando, em 1950, a TV surgiu no país, Casé passou-se para o novo veículo. Foi um pioneiro.

Regina guarda boas lembranças do avô: “Ele era muito terno, embora um homem autoritário, alguém que veio de baixo e se tornou rico; ele valorizava muito isso”, disse, em conversa com o Estado. Regina conta que, na época em que o avô era vivo, ela ainda não havia estourado na Rede Globo e era apenas a atriz do grupo Asdrubal Trouxe o Trombone. “E isso dá dinheiro?”, o avô lhe perguntava, em tom crítico. Era um empresário, um self made man brasileiro e acreditava no sucesso. Não tinha nenhum pudor em mostrar o sucesso que havia conseguido. Quando se tornou um empresário de êxito, voltou pela primeira vez à sua terra natal, Belo Jardim, e mandou embarcar o seu automóvel, um Packard último tipo, para passear seu sucesso diante dos conterrâneos. Parecia-lhe natural mostrar os signos exteriores de quem havia vencido na vida.

O importante é que, pela trajetória de Casé, passa todo um período vital da música e da cultura do País, ilustrada por imagens de época, garimpadas por Ciavatta. Há imagens em movimento de Ademar Casé, mas que são só apresentadas depois de uma meia hora de filme. “Queria sugerir que estava tratando de alguém cuja cara ninguém conhecia; mas, depois, mostramos as imagens domésticas de Casé, captadas por uma câmera que ele mesmo havia comprado para a família”. Um belo documentário, esclarecedor e amoroso.

(Caderno 2, 22/7/10)

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