As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário de Paulínia: Desenrola e documentários

Luiz Zanin Oricchio

20 de julho de 2010 | 13h28

Desenrola, de Rosane Svartman, entra no filão do filme sobre adolescentes, que já conta com alguns bons títulos recentes como Antes que o Mundo Acabe, de Anna Luiza Azevedo, Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho, e As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky. Desenrola não destoa desse bom conjunto, embora aposte mais na vertente “filme de praia, aventuras de verão”, tipicamente carioca. Visto por esse ângulo, funciona, e até que bem. Tem clima e graça.

A história é da garota Priscila (Olivia Torres), de 16 anos, que quer ter a primeira transa e escolhe o surfista gostosão da praia. Mas quem está a fim dela é um tipo meio desajeitado e gordinho, o Boca, também virgem. O filme é engraçado, despretensioso e leve. Não dramatiza as situações às vezes angustiantes do despertar da sexualidade adulta.

É, enfim, superficial o bastante para pleitear um espaço no circuito e interessante o suficiente para participar de um festival de cinema como o de Paulínia. É agradável como um picolé de limão.

Na competição entre documentários, Paulínia tem mostrado concorrentes interessantes. Leite e Ferro, de Claudia Priscilla, é um sensível retrato das presidiárias que têm filhos pequenos e amamentam na prisão. Um tanto refém das suas personagens, Claudia poderia ter ido mais fundo em histórias de vida no mínimo contraditórias. São Paulo Companhia de Danças, de Evaldo Mocarzel, faz um estudo composto só de imagens e sons, um belo retrato dessa arte em que o corpo é o próprio instrumento e a obra.

Já As Cartas Psicografadas de Chico Xavier entra no filão aberto pelo centenário do médium de Uberaba. Trabalha com a dor humana – mães que perderam seus filhos e foram a Chico Xavier para tentar entrar em contato com eles. A leitura das cartas, supostamente psicografadas, torna o filme uma experiência repetitiva. Fica o respeito por pessoas que só encontraram algum conforto na convicção de que a morte não é o fim de tudo. Essa atenção pode ser a base para a piedade, mas não é suficiente para o bom cinema.

(Caderno 2, 20/7/10)