Diário de Paulínia 2014 – Casa Grande e Sangue Azul, dois belíssimos filmes
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário de Paulínia 2014 – Casa Grande e Sangue Azul, dois belíssimos filmes

Luiz Zanin Oricchio

26 de julho de 2014 | 15h59

 

 

Ainda não tendo encerrado o cardápio proposto para este ano, Paulinia já pode ser orgulhar de dois belos concorrentes para os troféus de sua sexta edição – Casa Grande, de Fellipe Barbosa, e Sangue Azul, de Lírio Ferreira. Será preciso voltar com muita atenção a esses dois filmes no futuro. Por ora, algumas pinceladas.

Casa Grande é moldado por toques autobiográficos do seu diretor, e não tem esse nome por acaso. A referência ao clássico de Gylberto Freire, Casa Grande & Senzala, é explícita. Entra na companhia de filmes dedicados à questão de classes no Brasil (como O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho), além de apresentar um raro registro do ponto de vista da burguesia. A história é a do romance de formação do adolescente Jean, prestes a entrar para a universidade. Ao seu redor, a Casa Grande começa a ruir, muito pelas apostas erradas do pai, um investidor do mercado de ações. De certa forma, Jean se relaciona muito melhor com os empregados da casa, o motorista Severino e uma das empregadas, Rita, do que com os próprios pais ou a irmã.

A narrativa flui serenamente, com o diretor se dando tempo de contar detalhes, incluir narrativas e personagens secundários, e dar-lhes vida e verdade. Não é um filme perfeito, mas é daqueles que se veem e reveem seguidamente, sempre com o prazer de novas descobertas.

Quase o mesmo pode ser dito de Sangue Azul, de Lírio Ferreira. Filmado inteiramente em Fernando de Noronha, conta várias histórias, entre as quais a central: o de uma questão sexual não resolvida e interditada pelo incesto. Várias paixões brotam e se expressam com a chegada de um circo ao arquipélago, tendo entre os componentes, o homem-bala vivido por Daniel Oliveira.

Lírio é um dispersivo assumido. Suas histórias vagueiam em rumos diferentes, bifurcam-se em subenredos e contêm mais personagens que um romance russo. Além disso, coisa raríssima no cinema brasileiro atual, são muitíssimo bem filmadas. Não digo aqui que são filmadas de maneira correta, porque isso muita gente faz. As de Lírio não. Ele busca sempre o ângulo inusitado, o plano original, o movimento de câmera poético. Tem gosto pela linguagem cinematográfica e a conhece.

Já disse que não vai torcer pela seleção do Dunga. E o que tem a ver isso com o cinema? É que no futebol não basta ganhar, é preciso jogar bonito, jogar bem; pelo menos é como Lírio pensa – e eu também. No cinema, a mesma coisa. Não basta narrar uma história de maneira competente; é preciso fazê-lo com arte e graça. Com ginga.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: