Diário de Paris (9) A cidade pedala
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Diário de Paris (9) A cidade pedala

Luiz Zanin Oricchio

12 de setembro de 2008 | 05h27

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Ciclistas, com a Catedral de Notre Dame ao fundo

PARIS – Ano passado estive aqui e conheci o sistema público de bicicletas que acabava de ser criado pela prefeitura. Um ano depois estou de volta, e vejo que a iniciativa é um sucesso. Pedalar tornou-se hábito em Paris.

Claro, turistas aderiram em peso – afinal, alugar uma magrela por poucos euros é uma forma muito agradável de passear pela cidade. Mas o interessante é a adesão dos parisienses. Ao simples olhar, você nota que as bicicletas (vélos, como as chamam) tornaram-se ótima opção de transporte. Você vê muitos estudantes pedalando, senhoras que vão às compras (as bikes vêm com uma cestinha muito apropriada para isso), senhores com pasta executiva, trabalhadores, etc. Vêem-se nas ruas também outras bicicletas, diferentes das “oficiais”. Quer dizer, a iniciativa “contaminou” a população e há gente que prefere, ou acha mais econômico, ter a sua bicicleta própria.

O importante é que elas se tornaram uma opção de transporte, numa cidade que já é muitíssimo bem servida – há metrô em toda parte, ônibus confortáveis, etc. A tendência é que esses meios se integrem. Muita gente faz parte do trajeto em ônibus, metrô ou RER (que liga as periferias, as banlieues) e depois pega uma bike para percorrer o resto.

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Uma das estações, na rue San Sévérin, no Quartier Latin

O sistema é simples, mas depende de tecnologia. Existem as “estações” de bicicletas, espalhadas pela cidade. Elas são presas a um poste de metal e precisam ser desbloqueadas de forma magnética. Pode-se fazer uma assinatura por 1 ano (29 euros), 7 dias (5 euros) ou 1 dia (1 euro). A primeira meia hora é grátis, o que leva muita gente a andar até 30 minutos, devolver a bicicleta e pegar outra. Depois de 30 minutos, o tempo começa a ser contado. A contagem é interrompida quando você devolve a bicicleta, em qualquer estação. Quanto mais tempo de uso para uma mesma bicicleta mais caro, proporcionelmente, fica o aluguel. A idéia clara é incentivar o uso rápido, a rotatividade, para que haja veículos para todo mundo. Para alugar uma bicicleta, você precisa ter um cartão de crédito, sobre o qual é feita uma caução de 150 euros, no caso de a bicicleta não ser devolvida. Depois, é sair pedalando.

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A estação, com o painel de desbloqueio em primeiro plano, à esquerda

Sondagem feita pelo sistema Vélib mostra aprovação de 94% dos usuários. Sobre a utilização, a maior parte destina-se ao trabalho e afazeres, em especial quando se trata de percurso pequeno ou médio. Paris é uma cidade plana, com algumas exceções (Montmartre é a colina mais famosa, mas há outras regiões altas, como Belleville por exemplo). Para esses usuários, a Vélib está estudando atribuir 45 minutos gratuitos em vez dos 30 habituais. O serviço está sendo estendido às banlieues, com construção de mais 300 estações, que colocarão nas ruas mais 4.500 bicicletas.

Há problemas? Sim. Ocorrem acidentes com carros, há casos de depredação, algumas estações são procuradas demais, às vezes não existem bicicletas disponíveis, etc. Noto, no olhômetro, que os bicicleteiros não se integraram ao trânsito ainda. Muitos permitem-se tudo, como andar por calçadas, fora das ciclovias (que já existem em boa parte da cidade) e vai por aí. Além disso, no verão e primavera, tudo bem. Mas Paris é uma cidade de tempo ruim vários meses ao ano. É úmida, fria, chove muito, de, digamos, outubro a maio. Deve-se prever uma queda de utilização durante esses meses.

Mesmo assim, a Vélib é um sucesso. Entrou no cotidiano do parisiense e veio para ficar. É uma forma inteligente de tornar a cidade mais humana.

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