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Diário de Paris (8) O Papa na mira da Charlie Hebdo

Luiz Zanin Oricchio

10 de setembro de 2008 | 15h49

PARIS – Desde que cheguei tenho notado um movimento incomum em torno da Catedral de Notre Dame. Claro, a igreja, que fica no coração de Paris (talvez nos dois sentidos), sempre atrai muitos turistas. Este ano, achei um pouco demais.

Hoje, vi que armavam na praça em frente aquelas arquibancadas provisórias, metálicas. E, ao lado, havia aqueles caminhões enormes da TV francesa. Então caiu a ficha: é o papa que vem por aí.

Não vou entrar em nenhuma consideração sobre Ratzinger, assunto de vários artigos legais nos jornais de hoje. Um deles, no Le Monde, analisando as bases filosóficas do pensamento de Ratzinger e o aproximando da Aufklärung, das Luzes, do Iluminismo. O papel continua aceitando tudo e, hoje em dia, ainda mais, mas o artigo, por delirante que seja, está muito bem escrito. Apenas uma observação: não dá para engolir que o obscurantismo religioso seja aproximado justamente à corrente filosófica o combateu. Pobre Voltaire, acho que deve estar se revirando no Panteão, não longe daqui.

Outra publicação que não perdeu a oportunidade da visita do papa foi a satírica Charlie Hebdo, que, como diz o nome, é semanal. Na revista, colabora o grande Wolinski, que conheci e entrevistei ano passado em Manaus. Aliás, ele também me entrevistou, mas esta é outra história. Wolinski é um ícone do cartum francês, nome sempre ligado ao maio de 68 e ao pensamento libertário. Anarquista, desconfiado de todos os poderes, mulherengo, mordaz, um tremendo gozador.

Mas, vamos ao que interessa. O número especial da Charlie, em “homenagem” ao papa, traz logo na capa um desenho de Ratzinger com a manchete: “Dieu n’existe pas!” E vai por aí. A revista está engraçadíssima porque além do tratamento especial concedido ao papa ainda o relaciona com outro alvo constante da equipe – o presidente de direita Nicolas Sarkozy.

Falando em Charlie Hebdo. Eles se meteram em confusão tempos atrás quando reproduziram a famosa charge que associa Maomé a Bin Laden. Foram processados. E mais, o processo virou um documentário, que estréia nos cinemas apenas na semana que vem. Quer dizer, vou perder. O doc, do qual vi um trailer, trata das etapas do processo. É dirigido por Daniel Leconte (seria filho do Patrice?) e tem o título de “C’est Dur d’être aimé par des cons”. É duro ser amado por imbecis.

Não sei se uma revista tão livre e iconoclasta circularia no Brasil. Aqui se encontra em qualquer banca. Mas também não escapou da ira dos fundamentalistas. Será que passa incólume por Ratzinger?

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