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Diário de Paris (5) O silêncio e a música nos Dardenne

Luiz Zanin Oricchio

09 de setembro de 2008 | 16h04

A música nos Dardenne é imperceptível. Invisível. Ou eu deveria dizer: inaudível. Ela existe; você não percebe. Até que, afinal, ela entra com tal parcimônia, e senso de raridade, que causa um efeito espetacular. Digo isso porque acabei de assistir a Le Silence de Lorna, num cinema no Carrefour de l’Odeon. Aqui pertinho. Achei um filme maravilhoso. Ganhou o prêmio de roteiro em Cannes, mas não me lembro de nenhuma crítica muito entusiasmada. Pode ser problema de memória. Ou não li as matérias da cobertura. Alguma coisa assim. Sei é que fui atrás de um filme para ver e descobri esse dos Dardenne aqui perto do hotel. Saí correndo, porque adoro Rosetta e A Criança.

Não me decepcionei com Le Silence de Lorna. Pelo contrário. Achei fantástica a história da garota albanesa, que, para virar belga, faz um casamento de conveniência com um drogado e, ao mesmo tempo, está negociando sua recém-adquirida nacionalidade com algum russo suspeito. A trama – que não vou contar – é escabrosa. A todo momento você fica se perguntando “mas que mundo é esse o nosso, meu Deus?” E é assim: quando você está de passagem por esse sonho dourado da Europa unificada, a impressão parece ainda mais forte. Cria-se um suposto verniz de civilidade, de união e solidariedade, possível de ser raspado com a ponta da unha. Esse problema dos imigrantes, que passam para lá e para cá, e são escorraçado em todo canto, têm de se sujeitar a tudo por um passaporte ou um visto de permanência – bem, essa é a falha no coração do cristal. É algo que vai levar a Europa, ou pelo menos a utopia européia, à breca. É disso tudo que falam os Dardenne.

E, sim, a música. Quando ela entra mansamente, na cena final, eu quase tive um troço. Porque a cena é tão doce como demolidora. E as notas eram do Adágio da Sonata op. 111, de Beethoven –para muitos a sonata das sonatas. Depois falo mais sobre ela, que ocupa um lugar central num dos livros que amo, Doutor Fausto, de Thomas Mann. Escritor que, diga-se de passagem, compreendeu como poucos o sentido da “civilização” européia. Basta ler A Montanha Mágica e o próprio Doutor Fausto, seu testamento terrível.

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