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Diário de Paris (10) Fecho por aqui, câmbio

Luiz Zanin Oricchio

12 de setembro de 2008 | 16h37

PARIS – É o último despacho da série, estou escrevendo no Charles de Gaulle enquanto espero o vôo. Meio complicado sair da cidade por causa da presença do papa, que foi rezar missa na Notre Dame bem na hora em que eu tinha de sair para o aeroporto. Tudo fechado, polícia por toda a parte, multidão, devotos e curiosos. Ratzinger estava com autoridades da igreja da França, além de Sarkozy, Chirac e outros políticos.

A viagem dele por aqui, como já disse em outro post, vem cercada de entusiasmo, dúvidas, ironias. O Libé acha que não adianta passar quatro dias na França para reabilitar uma religião em baixa. Mas pede que se preste atenção ao que ele tem a dizer – que, por certo, será mais sutil que seu anfitrião, Nicolas Sarkozy. Mas há muitos artigos sérios sobre o papa que, para os franceses, continua um mistério. O Le Figaro lançou caderno especial. O Le Monde, há dias, vem publicando análises e artigos, inclusive um, muito bom, com o qual não concordei mas que tem o seu valor. Alguém, no blog, me observou isso. O ensaio é bom. Também acho. Só que tem um furo filosófico no meio. Algo que, no meu tempo de estudante, se chamava de “degrau”. Quer dizer, aquele pulinho que se dá de um conceito a outro, como se todos os caminhos fossem possíveis e então se chegam a conclusões insustentáveis. Aliás, veja que curioso, é contra esse e outros tipos de relativismo que o próprio Bento 16 se bate. Quer dizer, mesmo sendo contra o papa, é possível concordar com muito do que ele diz, e escreve. Vida complicada. Vida.

Bem, passando a outro assunto: assisti a mais alguns filmes aqui na minha estadia parisiense. O documentário Café con los Maestros, do argentino Miguel Kohan, sobre a velha guarda do tango tem, pelo menos, a co-produção brasileira, já que o logo da Petrobras aparece, junto com o nome de Walter Salles na produção, pela Vídeo Filmes, a empresa que possui junto com o irmão João Moreira Salles. É um bonito documentário, sem nada de excepcional, que entrevista e ouve os velhinhos do tango enquanto eles se preparam para um concerto memorável no Teatro Colón. Música de primeira, claro. E aquela emoção da Buenos Aires profunda, uma espécie de sedimento ético e histórico desse país que, muito mais do que o nosso, parece sempre à beira do abismo. Encontrei com uns argentinos num restaurante do Quartier Latin e eles se referiam ao país como nave à deriva, indo ao encontro de um iceberg, sob o governo de Cristina Kirchner. “Só um milagre nos salva”, disse um deles, dramático.

O outro documentário que vi, Em Construção, do catalão José Luis Guerin, é nada menos do que excepcional. Dele, já conhecia a ficção A Cidade de Sylvia, vista no Festival de Veneza do ano passado. No cansaço do festival me pareceu meio tedioso, mas, engraçado, nunca me esqueci desse filme, do homem que anda pela cidade atrás da tal mulher que ele um dia viu, etc…Quase sem palavras, etéreo, com um rigor de imagens muito forte. Gostaria de revê-lo; acho que nunca foi lançado no Brasil.

Filmado durante muito tempo, Em Construção registra a demolição de um bairro popular de Barcelona, El Chino, para a construção de moradias destinadas a tem dinheiro para pagar. O de sempre. Sem qualquer pieguice, Guerin vai registrando a fala dos antigos moradores, e também do pessoal que trabalha na demolição dos prédios e, depois, na construção dos novos apartamentos. Há diálogos sensacionais – como o de dois pedreiros, um galego, outro marroquino, carregados de grande sabedoria. Bem, ainda quero falar muito sobre esse filme.
O curioso é que, depois da sessão, houve um debate no subsolo do cinema, o Espace San Germain. Gostei do que Guerin falou, e então me deu um estalo: Esse é o tipo de filme que tem de vir para a Mostra de São Paulo. Fiquei esperando o final da conversa, fui falar com ele, pedir um contato para passar ao Leon Cakoff e Renata, caso eles se interessassem pelo filme. Eu indicaria de olhos fechados. Pois bem, perdi meu tempo porque o filme já está na Mostra de São Paulo, confirmadíssimo. Pelo que entendi, eles o convidaram ainda no ano passado, em Veneza, quando Guerin apresentou A Cidade de Sylvia e deveria estar montando Em Construção. Amigos da Mostra: já podem colocar esse filme como um dos indispensáveis na maratona deste ano.

Por fim, hoje à tarde, para matar o tempo, fui a um pequeno cinema na rue Galande ver Paris, de Cédric Klapish. Fui meio sem palpite, mas gostei muito. Romais Duris faz o rapaz que recebe um diagnóstico de doença cardíaca grave. A única solução: um transplante. Mesmo assim, de alto risco. Com a morte nas costas, ele passa a olhar de maneira diferente para os vizinhos, as mulheres, os amigos, os transeuntes, a cidade, enfim. Mas o filme acaba sendo coral, com foco distribuído por vários personagens e suas histórias. Elenco de luxo. Além de Duris, Juliette Binoche, Fabrice Luchini, François Cluzet, entre outros. Paris é um óbvio filme comercial que, nem por isso, precisa ser burro ou grosseiro. É também uma tremenda declaração de amor a Paris, cidade que é muito paparicada, mas merece todas as cantadas que recebe.

E agora, até por aí, pelo Brasil. Fui.

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