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Diário de Paris (1)

Luiz Zanin Oricchio

07 de setembro de 2008 | 17h32

PARIS – Cheguei. Ufa! O Festival de Veneza me deixou exaurido, nem eu mesmo sei por quê. Vim dormindo no vôo, apagado. Está certo que fui dormir tarde ontem, depois da premiação. Tive de escrever uma materinha para o jornal, que deve ter saído na edição de hoje, domingo. Depois, alimentei o blog (que termo, esse, como se o blog fosse um animal faminto, o que não deixa de ser). Depois fomos jantar, no restaurante do Hotel Quatro Fontanne, que já conheceu dias melhores. E assim acabei dormindo tarde, depois de ter comido demais. E tive de acordar cedo, uma correria danada, porque tinha de escrever a matéria grande do festival para o Caderno 2, que sai amanhã, fechar a conta no hotel, tomar o barco e pegar o avião para Paris no aerorporto Marco Polo. Deu tudo certo. Mas foi no sufoco.

Cheguei aqui, a um hotel recomendado pelo Merten, o Argonautes. Em plena rue de la Huchette, que é onde eu gosto mesmo de ficar, no Quartier Latin. E aqui é a super muvuca, restaurants, boates, artistas de rua, turistas, num vai e vem que não pára nunca. Hotel simples, entrei e relembrei do meu tempo de estudante em Paris, morando onde dava para morar. Mas o quarto é correto. Não tem TV. Mas tem internet, o que, no meu tempo de estudante, nem em ficção científica existia. Tudo é um pouquinho tosco e tem aquele cheirinho de coisa antiga. Uma surpresa: tem uma banheira imensas, dessas em que a gente pode nadar. Resta ver se há água quente, o que vou conferir daqui a pouco.

Dei uma volta rápida, passei pela Notre Dame, como sempre faço, apinhada de turistas. Mas, e daí? A majestade está lá, intacta. Havia uma missa. Achei graça quando o padre pediu aos fiéis que abrissem mais a carteira, pois ele havia detectado uma baixa nas caixas de esmolas. É a crise. Depois dei uma olhada nos cinemas da região, que dispõe de ótimas salas de arte – o Champo, o Réflets Médicis e outras. O Merten, se estivesse por aqui, ficaria doido pois estão fazendo uma retrospectiva integral de Visconti. Hoje mesmo tinha O Leopardo, mas estou cansado demais para assistir à decadência do príncipe de Salinas. Há um Visconti que não conheço – Sandra – e vou tentar ver um desses dias. Na mesma sala, levam também uma retrospectiva de cinema italiano, com Perfume de Mulher programado. Profumo di Donna, um grande Dino Risi, que morreu há pouco, e Vittorio Gassman, que já se foi há muito mais tempo. Se der, quero rever essa delícia de filme, que teve um remake se não me engano com Al Pacino.

Ah, sim, eu havia prometido resistir ao vício, mas não deu. Passei por uma liquidação de livros na Gilbert Jeune e olhei o que havia, como quem não quer nada. Mas a minha atenção foi chamada para um velho volume de Balzac, capa dura, com dois textos: Eugénie Grandet e La Recherche de l’Absolu. Sabem quanto? 20 centavos de euro! Praticamente eles te obrigam a levar o livro, é quase compulsório. Se o Antero Greco, mix de boleiro e bibliófilo, estivesse por aqui ficaria louco.

Agora vou ver a banheira funciona. Banho e dormir. E deixar para trás o Festival de Veneza, embora desconfiando que ainda vou falar dele por algum tempo.

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