Diário de Gramado 2014 – A noite das guerras
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Diário de Gramado 2014 – A noite das guerras

Luiz Zanin Oricchio

10 de agosto de 2014 | 11h04

Elenco de Estrada 47/Foto de Edson Vara

GRAMADO – Um pacote bélico foi escolhido para a segunda noite de competição do 42º Festival de Cinema de Gramado. Primeiro, no âmbito local, Os Senhores da Guerra, de Tabajara Ruas, que tem por palco histórico a guerra civil de 1924, no Rio Grande do Sul. Depois, veio A Estrada 47, sobre a participação brasileira na Itália, durante a 2ª Guerra Mundial.

A história gaúcha tem peculiaridades e nuances às vezes de difícil compreensão para um espectador menos informado. Ruas, a partir do romance de José Antonio Severo, cria a oposição entre dois irmão que se amam, Julio e Carlos Bozano, porém se encontram em lados opostos no campo de batalha. Um luta ao lado dos chimangos, outro, dos maragatos. O filme é sólido, digno, porém padece do excesso de personagens, o que leva a certa confusão narrativa. Parece mais adequado a uma minissérie que ao formato enxuto de uma sessão única no cinema.

Já Estrada 47, de Vicente Ferraz, sofre de problema oposto. Concentra-se demais em poucos personagens e, com isso, perde a dimensão maior do conflito, talvez a página histórica definidora do século 20. A história é a de um esquadrão de caçadores de minas que sofre um ataque de pânico e se dispersa. Os remanescentes enfrentam o frio das montanhas e tentam desarmar um campo minado importante do ponto de vista estratégico – a tal estrada 47, por onde passariam tropas americanas. No percurso, encontram um desertor italiano (Sergio Rubini) e um soldado alemão ferido.

A qualidade dos atores (Daniel de Oliveira, Thogum, Julio Andrade, Francisco Gaspar) não basta para dar emoção a essa história que, no entanto, tem seus momentos e suas qualidades. Mesclada, no começo e no fim por cenas documentais dos pracinhas da FEB (Força Expedicionária Brasileira) na Itália, Estrada 47 tenta um alcance universal de difícil realização. Quando se pensa nos grandes filmes antibelicistas (A Grande Ilusão, de Jean Renoir, ou Glória Feita de Sangue, de Stanley Kubrick) tem-se ideia dessa dificuldade. O próprio diretor se queixou no palco das dificuldades de uma produção desse porte.

As reações a esses dois dramas foram diferentes em intensidade, mas se pode dizer que ambos foram bem recebidos. Um, o gaúcho, jogava em casa, e tinha na plateia o apoio do elenco e da equipe técnica. Mais de 70 pessoas subiram ao palco e, naturalmente, aplaudiram no final. Parte do público também acompanhou no aplauso.

Já Estrada 47 foi prejudicado pelo cansaço e o avançado da hora. Começou depois das 23h, após uma maratona de filmes e homenagens. Parte do público se dispersou. O cinema ficou pela metade. Quem ficou, acompanhou o filme com interesse mas visível cansaço. Aplaudiu, timidamente. Já era mais de 1h da madrugada, e ninguém mais tinha energia.

Os festivais precisam repensar essa opção das programações infladas. O público se entendia e vai embora. A imprensa reclama. Mas os principais prejudicados são os filmes. O último concorrente da noite invariavelmente é assistido com impaciência, com as pessoas pensando no jantar – isso se encontrar algum restaurante aberto àquela hora da madrugada, o que em Gramado não é fácil. Os restaurantes fecham no máximo à meia-noite, mesmo nos finais de semana, e os taxistas vão para casa dormir. A cidade se comporta como se nela não estivesse acontecendo um importante festival de cinema. O mesmo que a colocou no mapa turístico do Brasil e de alguns países vizinhos.

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