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Diário de Gramado 2010: Ojos Bien Abertos, um ponto de vista de esquerda

Luiz Zanin Oricchio

08 de agosto de 2010 | 18h36

Cai (ou sobe?) uma neblina infernal aqui em Gramado. A tal ponto que escrevo do hotel e quase não distinguo as casas do outro lado da rua. Parece daquelas que se pode apanhar com uma colher, como ouvi de alguém ou de algum filme.

E, falando em filmes, eles continuam se sucedendo implacavelmente. Ontem à noite foi a vez de outro concorrente latino, o uruguaio Ojos Bien Abertos, de Gonzalo Arijón. Sobre ele: é o diretor do ótimo documentário La Sociedad de La Nieve, sobre aquele acidente aéreo nos Andes, com jogadores de rúgbi que sobreviveram em condições dramáticas, nas quais houve até mesmo prática de canibalismo. Esse filme ganhou o Festival de Amsterdã e foi apresentado no Brasil no festival É Tudo Verdade.

Bem, e quanto a esse Ojos Bien Abertos? Se você viu Ao Sul da Fronteira, de Oliver Stone, vai encontrar grande semelhança entre eles. Como no filme de Stone, no de Arijón também se trata de ver o que acontece em países com governos de esquerda na América Latina: Brasil, Chile, Bolívia, Venezuela, Paraguai. É um filme dirigido por um homem de esquerda e favorável a esses governos que, em sua interpretação, dão os primeiros passos no sentido de libertar, economicamente, um continente esmagado pelo colonialismo.

O “mestre de cerimônias”, aquele que vai comentando as imagens que se veem, é o escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de um livro de grande sucesso em tempos idos – As Veias Abertas da América Latina.

Em certo sentido, pode ser fácil criticar e até debochar do filme. Afinal, ele se apresenta como obra partidária, defensora de um ponto de vista. Justamente aquele que não encontra qualquer ressonância na chamada mídia oficial. E talvez o filme seja mesmo parcial. Sua razão de ser: fornece, pelo menos um outro olhar, uma espécie de contraponto a uma visão bastante preconceituosa sobre a realidade latino-americano.

E, claro, ver essa realidade pelos olhos de Galeano, é sempre esclarecedor. Pelo menos para quem deseja ter uma compreensão mais completa, menos preconceituosa daquilo que o cerca.

No final de sua entrevista, Arijón confessou que nada sabe a respeito do futuro da esquerda na América Latina, ou em qualquer parte do mundo: “Mas não é por isso que vou abaixar a guarda e deixar de lutar”. É isso. Há quem ache o mundo atual muito bom e perfeito. Há quem pense o contrário e ache que outro mundo é possível, como dizem alguns movimentos sociais.

Pode ser e pode não ser. Mas o conformismo não leva a nada e o inconformismo pelo menos pode mudar algumas coisas. A escolha é de cada um. Arijón fez a sua e convida os espectadores a pensarem por conta própria.

A mensagem final é de Galeano, dizendo que uma das sete pragas, não do Egito mas da América Latina, é o excesso de retórica, “a inflação, não monetária, mas palavrária”. Cabe falar menos e agir mais. De pleno acordo, pelo menos nesse ponto.

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