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Diário de Gramado (3) Canção de Baal e os ferroviários de Solanas

Luiz Zanin Oricchio

11 de agosto de 2009 | 12h02

GRAMADO – O festival teve uma bela sessão dupla ontem à noite. De um lado, o cinema engajado e panfletário (no melhor sentido do termo) do argentino Fernando ‘Pino’ Solanas. De outro, o épico brechtiano e tropicalista de Helena Ignez, que dedicou a projeção ao marido, o cineasta Rogério Sganzerla, morto há alguns anos.

Há mesmo muito do espírito de Sganzerla nessa leitura livre da peça Baal, de Brecht, feita por Helena. O personagem, interpretado por Carlos Careqa é um poeta desasso e beberrão. Leva a vida entre música e belas mulheres. Uma bela interpretação do ator, num filme visualmente muito bonito e envolvente. É uma beleza convulsiva, como queria Rimbaud (ou seria Baudelaire?), que passa por uma narrativa fragmentada, sem qualquer intenção de fechar-se em um sentido definitivo. Obra aberta à multiplicidade de leituras, como o próprio personagem adverte, no início: “se uma história é bem compreendida, é que ela foi mal contada”. Bingo. Apesar de sua dificuldade (se pensarmos no vício do cinema narrativo), o longa foi muito bem recebido. Prova de que o cinema poético, quando bem logrado, tem a sua lógica própria, interna, e esta é perfeitamente captável pelo público.

Já La Próxima Estación, de Solanas, joga em dimensão oposta. É um extraordinário documentário, feito à maneira de um panfleto – quer dizer, visa convencer o espectador da justeza de suas ideias. No caso, faz uma denúncia dura, sem meios-termos, do processo de privatização das ferrovias argentinas que desmantelou uma complexa malha de ligação entre cidades do País e havia sido construída pelo esforço de gerações. Solanas entrevista antigos trabalhadores das ferrovias nacionais e essas falas têm grande impacto. São homens cultos, ciosos do seu trabalho, e notam que, com a extinção do seu ofício, toda uma inserção no mundo havia se perdido.

La Próxima Estación trata, principalmente, dessa extinção de uma cultura proletária devorada pelo capital internacional. O fascínio do filme vem não só dos depoimentos, mas da maneira como Solanas enfrenta, de cara limpa, o sistema financeiro que está na origem do processo. Há muita diferença entre a sua disposição e a dos documentaristas brasileiros, de maneira geral. Solanas é um homem de visão política. Sabe que os dramas individuais se subordinam a um todo, ao processo histórico. No Brasil, em geral, vai-se ao indivíduo e, eventualmente, aos seus sofrimentos e condições desafavoráveis (pelo menos ia-se, até entrar em voga um cinema umbelical, cujo principal interesse é o do cineasta consigo mesmo), mas perde-se em geral o todo. Daí a necessidade do cinema de Solanas, que prossegue, filme após filme, sua denúncia implacável do desmonte de um país que já foi modelo de prosperidade. Pena que Solanas, que é casado com a brasileira Angela Correia, não tenha vindo a Gramado. Teria, como sempre, muito a dizer a todos nós.

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