Diário de Gramado 2014 – Um picadinho de qualidade
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário de Gramado 2014 – Um picadinho de qualidade

Luiz Zanin Oricchio

15 de agosto de 2014 | 14h04

 

Cena de Dromedário no Asfalto

GRAMADO – Assim são os festivais hoje em dia – oferecem mais coisas do que somos capazes de assimilar. Ou, pior ainda, de postar no blog ou escrever no papel. Coisas demais. Em geral, boas. O jeito é, de vez em quando, fazer um picadinho de assuntos que mereceriam tratamento mais extenso, sereno e adequado. Temos de nos adaptar ao ritmo dos festivais. Então vamos lá

1)      A Mostra Gaúcha de longas fica meio perdida no meio da tarde. No entanto, tem recebido ótimo público. A sala lota. E alguns filmes são bem interessantes. Destaco (até agora) Dromedário no Asfalto, de Gilson Vargas. Um filme da errância, como parecem preferir os jovens realizadores. Filme de estrada. Pedro (Marcos Contreras) vai de carona em direção ao Uruguai. Procura algo. Ou alguém. Uma figura paterna, conforme a carta que lê em off durante a jornada. Praias invernais, solidão, carteira sem grana, problemas nos hotéis, numa filmagem cheia de charme e despojamento. Gostei demais.

2)      Curiosamente, aparentado a um competidor da Mostra de Longas Estrangeiros – El Lugar del Hijo, de Manuel Nieto. O rapaz é um estudante em Montevideo, que vai para o interior do país, Salta, quando recebe a notícia da morte do pai. Lá descobre que o pai tinha uma amante, deixou um monte de dívidas e uma fazenda que terá de ser vendida para atender aos credores. É uma história de desenraizamento e busca de si, mas sem nenhuma pompa ou intelectualismo inútil. O protagonista é vivido por um ator que, por causa de um acidente, apresenta problemas de fala e claudica. Jamais faria carreira em Hollywood.

3)      Outro estrangeiro, o venezuelano Esclavo de Dios, de Joel Novoa, causou polêmica. Houve quem o considerasse muito pró-Israel. Ora, o que um filme latino-americano tem a ver com o conflito no Oriente Médio? Tudo, segundo a abordagem de Novoa. O personagem Ahmed Al Assamana é visto na infância, quando seus pais são assassinados. Uma organização terrorista o salva e o manda para a Venezuela. Lá ele cresce, estuda, se torna médico e forma família. Mas precisa pagar a dívida com seus supostos salvadores. O filme torna-se então um thriller (bem-feito) com a luta entre o serviço secreto israelense (o Mossad) e grupos que pretendem praticar atos terroristas em Buenos Aires. O diretor disse que pretendeu uma abordagem equilibrada entre esses polos tão extremos e tão exasperados. A prova, ele diz, é que tanto judeus como palestinos, fizeram reservas ao filme. Mas, visto no pente fino, ele parece mesmo inclinar-se em favor dos israelenses.

4)      Saindo da esfera política, temos Las Analfabetas, do Chile, um filme originado de uma peça de teatro e com apenas duas atrizes em cena. Uma (Paulina García) faz a senhora de meia-idade que não sabe ler. Outra, a jovem professora (Valentina Muhr) que primeiro lê os jornais para a outra, e depois a convence a aprender a ler. Mesmo porque existe uma misteriosa carta, deixada pelo pai, que ela deve tentar ler sozinha. O filme tem algumas sutilezas e alguns pontos problemáticos. A sutileza está no título. Não se trata de uma analfabeta, mas de duas. Uma simplesmente não sabe decodificar as letras do alfabeto; a outra, é uma ignorante afetiva. No caso, ambas se ensinam e ambas se estranham mutuamente. O problema é que a estrutura teatral entra de uma maneira meio rígida na narrativa, o que a atravanca um pouco. Fica meio complicado para o espectador “entrar” no filme.

5)      Ontem foram apresentados dois longas brasileiros, Sinfonia na Necrópole, de Juliana Rojas, e Infância, de Domingos Oliveira. Como já os abordei recentemente quando cobri o Festival de Paulínia, deixo de comentá-los aqui. A redundância dos festivais cobra esse preço. Por isso, o ineditismo é importante. Festival de ponta (Gramado é um deles) deve ser lançador de filmes e não repetidor. Enfim, esse é um ponto de vista, que não coincide com o da curadoria do Festival.

6)      Dos curtas, até agora gostei da animação A Pequena Vendedora de Fósforos, de Kyoko Yamashita, Compêndio, de Eugenio Puppo, Contínuo, de Carlos Ebert e Odécio Antonio, História Natural, de Julio Cavani, O que Fica, de Daniella Saba, e Sem Título #1: Dance of Leitfossil, de Carlos Adriano. A seleção está boa este ano.

Tudo o que sabemos sobre:

Festival de Gramado 2014

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.