Diário de Gramado 2014 – Tragédia de Santa Maria comove festival
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Diário de Gramado 2014 – Tragédia de Santa Maria comove festival

Luiz Zanin Oricchio

12 de agosto de 2014 | 10h41

O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), deixou 242 mortos e mais de 600 feridos na madrugada de 27 de janeiro de 2013. Essa tragédia é tema do documentário Janeiro 27, de Luiz Alberto Cassol e Paulo Nascimento. A exibição do filme, na presença de pais das vítimas, foi muito comovente. Cassol disse, antes da projeção, que havia morado em Santa Maria (assim como o outro diretor, Paulo Nascimento) e se sentia na obrigação de fazer esse filme. O propósito é claro, tanto por parte dos cineastas como dos pais enlutados: é preciso lembrar para que fatos semelhantes não se repitam. A memória é o melhor remédio contra a irresponsabilidade.

Como se sabe, a tragédia foi causada por falhas inacreditáveis na segurança do ambiente. Uma banda se apresentava e promovia espetáculos pirotécnicos em ambiente fechado, o que causou o incêndio. Mais inacreditável ainda fica o caso quando se sabe que outras tragédias semelhantes já haviam ocorrido, em 2003 nos Estados Unidos e 2004 na Argentina. E não serviram de lição para os donos da boate Kiss. Esses fatos são lembrados no filme, através de depoimentos de pais e mães de jovens vítimas nos EUA e Argentina.

Trazendo o foco do filme para o caso brasileiro, são entrevistados pais e mães que perderam seus filhos no incêndio da boate de Santa Maria. Eles não permaneceram paralisados em sua dor. Corajosos, fundaram uma entidade, uma ONG, que tem por objetivo principal fazer com que a memória da tragédia seja preservada. Por incrível que pareça, depois de algum tempo, passaram a encontrar resistências no interior da própria cidade. “Começamos a ouvir que era melhor passar uma borracha sobre o caso e seguir adiante, esquecer tudo”, diz um deles. Era como se comunidade sentisse o caso como mancha social ou entrave para investimentos na cidade. “Passaram a nos culpar pelo fato de Santa Maria não crescer e se desenvolver mais”, diz outro.

O filme examina esses sentimentos contraditórios no âmbito social – solidariedade num primeiro momento, desejo de esquecimento no outro.

Já no domínio pessoal dos envolvidos diretos, como pais enlutados e jovens atingidos em sua carne e espírito, a sensação é outra. Há o desejo, sim, de seguir adiante – e nesse ponto, é emocionante ver o otimismo de quem carrega no corpo as cicatrizes do incêndio. Mas há também a consciência precisa de que o esquecimento abre espaço para que fatos como esses se repitam.

O longa-metragem Janeiro 27 (70′ de duração) passou em Gramado fora de concurso.

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