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Diário de Gramado 2014 – O anjo de Hamburgo e a infância em Mendoza

Luiz Zanin Oricchio

16 de agosto de 2014 | 12h58

GRAMADO – Os últimos dois concorrentes não alteram em substância a expectativa quanto aos prêmios desta edição de Gramado – que serão conhecidos esta noite. Pelo lado brasileiro, Esse Viver Ninguém me Tira, de Caco Ciocler, marca a estreia do ator na direção. No caso, um documentário, tendo por personagem Aracy de Carvalho, esposa de João Guimarães Rosa. Ara, como a chamava o genial escritor de Sagarana e Grande Sertão: Veredas, trabalhou em Hamburgo durante o regime nazista, e, conseguindo vistos brasileiros para judeus, salvou dezenas de vidas. Teve essa atuação humanitária reconhecida pelo Estado de Israel.

Entre os latinos, o último concorrente foi o argentino Algunos Dias Sin Musica, de Matias Rojo, interessante imersão no mundo infantil da periferia de Mendoza. A história é a de Sebastian, que se muda para o bairro e faz amizade com outros dois garotos na escola. Em pensamento, desejam a morte da professora de música e eis que a mulher tomba, fulminada por um ataque repentino. O filme mescla fantasia infantil com lances duros da realidade, tais como os pais fracassados, avós doentes e autoritárias .Enquanto isso, um deles, criado apenas pela mãe, tenta descobrir o pai entre trabalhadores bolivianos na colheita de uva. Terno, sincero, com alguns lances próximos a um sutil surrealismo, Algunos Dias sin Musica foi um belo fecho para uma mostra latina de nível alto. O júri terá bom material para trabalhar em seus prêmios. Dão seis prêmios – melhor filme, direção, ator, atriz, roteiro e fotografia.

A história de dona Aracy é belíssima. Ela é descrita como uma mulher adiante do seu tempo. Com um filho pequeno, separada do marido, embarca para tentar a vida na Alemanha nos anos 1930. Arruma emprego no Consulado Brasileiro em Hamburgo. Tempos depois, chega João Guimarães Rosa para ocupar o cargo de cônsul adjunto. Aracy é incumbida de ajudá-lo a encontrar casa. Ao mesmo tempo, usa de expedientes nada ortodoxas para conseguir vistos brasileiros para judeus. Havia uma instrução secreta do governo de Getúlio Vargas para que esses vistos não fossem concedidos.
Para reconstituir essa história, Ciocler fala com descendentes de sobreviventes do Holocausto, pesquisa a documentação de Aracy depositada no Instituto de Estudos Brasileiros, da USP, e conversa com parentes e estudiosos. Faz, basicamente, um filme de depoimentos, mas com inserção de sua própria experiência – Caco é judeu, visitou Israel e, no final, faz uma revelação surpreendente para a história.

O documentário, no entanto, ganharia em impacto caso fosse menos convencional. Salva-o, no entanto, a magnífica figura de Aracy, que morreu aos 101 anos e levou uma vida de coragem exemplar. Ao lado do maior escritor brasileiro do século 20.

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