Diário de Gramado 2014 – Críticos, na tela e ao vivo
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Diário de Gramado 2014 – Críticos, na tela e ao vivo

Luiz Zanin Oricchio

13 de agosto de 2014 | 10h20

 

GRAMADO – Foi a vez dos críticos de cinema no Festival de Gramado. Na tela, passou o concorrente latino, El Critico, do argentino Hernán Guerschuny. Logo após o debate do filme, começou o Encontro da Crítica, promovido pela ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul) e ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) com três decanos da crítica porto-alegrense, Hiram Goidanich (Goida), Hélio Nascimento e Enéas de Souza.

Na tela, o que se viu foi uma divertida paródia desconstrutiva de um métier cercado de mitologias e preconceitos. Para começar, o crítico-protagonista, Telles (Rafael Spregelburd) se expressa em espanhol, mas pensa em francês. Assim, como dizia Nietszche, só se filosofa em alemão, todo crítico de cinema que se preze deve ler as bíblias Cahiers du Cinéma e Positif e, portanto, pensar no idioma de André Bazin, o santo protetor da categoria.

Como todo crítico-clichê, Telles tem barba, veste-se com um paletó esporte e é um intelectual rematado. Anota com sua caneta-lanterna durante os filmes e tem dificuldades em lidar com as emoções. Claro, cultua os filmes da nouvelle vague e despreza as comédias românticas. Até que, procurando apartamento, ele conhece uma moça encantadora (Dolores Fonzi) e se vê, ele próprio transformado em personagem da mais piegas das comédias românticas.

Inteligente, refinado, cheio de referências mas também de bom humor e crítica afiada, El Critico é uma boa pedida para quem gosta de cinema e tenta entender essa curiosa trupe que passa a vida a ver, escrever e polemizar sobre filmes. Como diz Telles, é uma comunidade que, em geral, sofre da “maladie du cinéma”. Doença do cinema, que consiste em considerar a vida real como uma réplica rebaixada da verdadeira vida – que, esta sim, a que está nos filmes, vale a pena ser vivida. Até agora não se encontrou cura para esta doença. A cinefilia doentia é seu quadro mais agudo, podendo levar a formas brandas de esquizofrenia.

A força dessa doença incurável prova o sucesso da mesa dos nossos queridos amigos gaúchos – Hélio, Goida e Enéas – que deram um show de erudição sem fraque e cartola, bom humor e discernimento ao falar de trajetórias que, juntas, somam 150 anos de dedicação à causa do cinema. A plateia, composta de críticos de várias gerações, uns mais moços (e outros nem tanto),se deliciou com as frases de efeito e o espírito provocador desse veteranos de sangue jovem.

Muitas questões importantes foram abordadas, como a problemática recepção dos filmes do Cinema Novo (em especial os de Glauber Rocha) pelo pessoal do Sul. Nascimento lembrou que, pela formação, eram muito presos ao realismo, portanto tinham dificuldade em entrar no universo barroco do baiano. Enéas disse que foi à França e conversando com colegas franceses se deu conta de que os filmes brasileiros que admirava – de Roberto Farias e Walter Hugo Khouri – podiam ser muito bons, mas não representavam novidade na Europa, ou em qualquer parte. No entanto, os filmes de Glauber Rocha só ele poderia fazer e só poderiam ser feitos no Brasil. “Nesse momento começou a cair a ficha”, disse. E, bem-humorado, pedindo perdão aos colegas, confessou que havia mudado de ideia em relação ao Cinema Novo.

Na saída fui dar um abraço em Hélio Nascimento e disse a ele que as duas horas do encontro haviam voado. “O cinema é terrível, podíamos ficar aqui até a hora da janta”, disse Hélio. E podíamos mesmo. Foi uma delícia. E um grande aprendizado. Nós que praticamos a problemática arte da escrita sobre o cinema precisamos de mais encontros desse tipo.

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