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Diário de Gramado 2013 – Revelando Sebastião Salgado

Luiz Zanin Oricchio

13 de agosto de 2013 | 11h15

GRAMADO – Um belo documentário sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, de Betse de Paula, foi o ponto alto da noite de ontem no Palácio dos Festivais. Betse foi entrevistá-lo em sua casa em Paris e o resultado foi um belo perfil do nosso mais conhecido mestre da fotografia.

Digo “perfil” e não o digo gratuitamente. Num perfil vê-se alguém sob seu ângulo mais favorável, e assim é o filme. Na saída, um crítico queixou-se de que não havia qualquer menção a aspectos mais questionáveis do trabalho de Salgado. Verdade. Passa-se por cima de uma polêmica que esteve em voga anos atrás, a de que Salgado, de certa forma, com suas magníficas fotos em preto e branco,”estetizava”a pobreza e lucrava com isso. Lembro-me dessa discussão e acho que saiu uma matéria bem negativa sobre ele numa publicação norte-americana, talvez na The New Yorker. Mas não estou certo.

Ok. Acho mesmo que é um tema para discussão e a fotografia, como o cinema, não são neutros em suas formas de apreensão da realidade. Quer dizer, o real não é algo que aguarda a melhor maneira de ser captado, mas, literalmente, é construído nesse processo de apreensão. Isso é o bê a bá de quem trabalha com imagens. Seja produzindo-as, seja escrevendo ou refletindo sobre elas, como é o caso deste escriba aqui.

Então não há isso em Revelando Sebastião Salgado. Mas há muitas outras coisas. Eu, pelo menos, aprendi muito. Por exemplo, vi como um homem articulado como ele é (economista, com pós-graduação) consegue levar sua cultura para seu ato de construção do mundo através das imagens. Salgado faz ciclos, como Êxodos, sobre as mudanças de populações pelo mundo. Em outra série, mostra como o o ciclo vital de um navio – da garimpagem dos minérios que estão na origem do aço que irá construi-lo até o desmanche no fim da sua vida útil – há todo um ciclo econômico envolvido. E quem diz ciclo econômico diz gente buscando sobreviver no planeta e nele viver melhor. Nesse sentido, a fotografia é, também, uma arte da compreensão da aventura humana.

A figura de Salgado é carismática, sem se impor. Faz low profile, como bom mineiro. Mas mesmo essa discrição não esconde o homem sábio, o aventureiro, o fotógrafo que reflete sobre seu métier. Esse homem, diga-se o que se disser, produziu imagens poderosas. Por exemplo, a imagem mental que temos de Serra Pelada, de sua paisagem lunar habitada por um formigueiro humano, deve-se às suas lentes. A construção desse personagem é feita com igual discrição e muito boa montagem. Sentimo-nos envolvidos por sua história que, de muitas maneiras, é também a nossa.

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