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Diário de Gramado 2012 Entrevista com Fernando Meirelles

Luiz Zanin Oricchio

13 de agosto de 2012 | 09h59

Novo projeto estrangeiro de Fernando Meirelles, 360, abriu, fora de concurso, o 40º Festival de Cinema de Gramado, na serra gaúcha. Meirelles compareceu à cidade para apresentar esse trabalho, que conta com vários atores estrangeiros conhecidos no elenco, como Anthony Hopkins, Jude Law e Rachel Weisz, além dos brasileiros Maria Flor e Juliano Cazarré.

 

O filme é montado na estrutura coral, quer dizer, várias histórias, muitos personagens, que acabam por se cruzar em algum momento da trama. Lembra, como estrutura, alguns filmes de Robert Altman (Short Cuts, Nashville), um especialista nesse tipo de armação de tramas. É inspirado na peça La Ronde, do escritor austríaco Arthur Schnitzler (1892-1931). O roteiro é de Peter Morgan, que também escreveu a peça Frost/Nixon (levada para o cinema por Ron Howard) e o roteiro de A Rainha, dirigido por Stephen Frears. Morgan tem residência na Áustria, mas vive na ponte aérea entre Viena, Londres e Nova York. Queria uma história que expressasse esse sentimento de vida em trânsito. É o espírito do filme – deslocamento contínuo, os sentimentos à deriva. Meirelles admite: “O filme é mais dele do que meu”, mas corrige-se, “é tanto meu quanto dele”. Ou seja, como diretor, Meirelles estabelece uma parceria real com quem escreve o texto. Com acréscimos: “No original, as histórias eram meio separadas, eu faço as ligações entre elas”.

Elas se desenvolvem entre cidades como Viena, Paris, Londres, Bratislava, Denver e Phoenix. Aliado ao elenco internacional, 360 é um puro produto da globalização. “No entanto, sempre se consegue colocar o nosso toque brasileiro”, garante Fernando. E em que consistiria esse brazilian touch? “Numa capacidade de improvisar, de encontrar soluções criativas”, diz.

Isso não que dizer que seja um filme “brasileiro”. É, de fato, um produto global, com sua série de histórias envolvendo sentimentos humanos, num mundo já sem muitas referências. Esse conto coletivo, à maneira de Short Cuts, que Altman adaptou das pequenas novelas de Raymond Carver, 360 inclui duas irmãs eslovacas, uma das quais se prostitui e a outra apaixona-se por um mafioso russo; um alcoólatra em busca da filha que não sabe se está viva ou morta (Hopkins), a garota brasileira (Maria Flor) que encerra um relacionamento depois de descobrir que Rui (Cazarré) a está traindo com a personagem de Rachel Weisz, etc. Ciranda amorosa que se espraia por personagens e continentes, cada vez mais em contato, num mundo interligado e solitário. Há nele uma certa beleza triste. Há, também, alguma impessoalidade, que se deve à natureza do projeto.

Meirelles gostou muito de realizá-lo, pelo menos é o que diz. Confessa que não gostaria de dirigir um novo filme coral, como este: “São nove histórias, e a gente fica com a sensação de que não pôde desenvolvê-las como gostaria”. De fato, apesar das interligações entre elas, destinadas a transformá-las num todo orgânico e potenciá-las mutuamente, fica mesmo a impressão de superficialidade em certos relatos.

Por que então fazer esse tipo de filme no exterior? Meirelles responde de modo direto. “Vou fazendo porque as oportunidades aparecem.” No entanto, admite já sentir nostalgia de dirigir um filme autenticamente brasileiro. Seu próximo projeto será internacional: Nêmesis, baseado na história do armador grego Aristóteles Onassis. Está em fase de escolha de elenco. Fala-se em Javier Bardem, mas Meirelles esconde o jogo. Será preciso também uma atriz para interpretar Jackie Kennedy e outro ator para Bob Kennedy. O diretor está muito entusiasmado. “É uma história que vou acompanhar do princípio ao fim, a partir do roteiro escrito por Braulio Mantovani.” Mas em seguida, ele promete, fará seu novo filme brasileiro.

Esses projetos internacionais trazem recompensas consideráveis, além das vantagens financeiras. Uma delas, por exemplo, é poder trabalhar com um grão senhor como Anthony Hopkins. Meirelles diz que Hopkins preferiu compor um personagem que tivesse muito a ver com ele mesmo. “Ele disse que queria interpretar a própria vida”. Por isso, os problemas com o alcoolismo do personagem, que se referem a uma circunstância de sua própria vida. Maria Flor gostou muito de contracenar com o ator: “Ele é generoso, e tem um jeito bastante econômico de atuar”, disse.

Mas e o ponto de vista do autor cinematográfico, de alguém que se tornou famoso no mundo por um filme como Cidade de Deus – como mantê-lo num trabalho de tantos idiomas, muitas locações em países diversos e tantas exigências contratuais? “Acho que, no fundo, o substrato da história é aquela pergunta que Freud se faz em seu ensaio O Mal-estar na Civilização: como podemos ser felizes numa cultura baseada sobre a repressão dos nossos instintos básicos?” É uma pergunta formulada em 1930, pelo pai da psicanálise, em seu famoso ensaio, que formula as inquietações do entre-guerras na Europa. Era também uma das angústias de Schnitzler, o autor de La Ronde e tão intelectualmente próximo a Freud que este evitava ler os escritos do primeiro para não se deixar influenciar.

360 entra em cartaz na próxima sexta-feira.

(Caderno 2)

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