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Diário de Gramado 2011: O Palhaço e Riscado

Luiz Zanin Oricchio

06 de agosto de 2011 | 13h38

GRAMADO – Bom, Gramado não estava com aquele frio todo que os meteorologistas previam. Frio, sim, mas não excessivo. A não ser dentro do cinema, que estava congelando as pessoas. Parecia frigorífico. Bom, ficamos numa pousada aqui, a Florença, que adota o espírito “tipicamente europeu” como eles mesmos dizem. Tudo muito sofisticado, apertadinho, cama com baldaquim. Um ninho de amor.

Romântico mas pouco prático para quem, afinal de contas, precisa trabalhar. Na mesinha do quarto mal cabe um laptop. No café da manhã, um dos empregados passa tocando violino. Bem, é esse o clima.

No cinema, tivemos a abertura com O Palhaço, de Selton Mello, fora de concurso. Já tinha visto em Paulínia e foi bom rever. Deu para notar ainda melhor a sutileza do trabalho. Uma simplicidade que só fala em favor do filme, ainda mais porque deixa muita coisa nas entrelinhas e aposta na inteligência emocional do público. Entra em cartaz em outubro. Tomara tenha sorte no circuito, tomado por obras brutais e pelo escracho que passa por comédia.

Depois veio o primeiro filme da competição, infelizmente exibido para um cinema bastante esvaziado. Riscado, de Gustavo Pizzi, um bom exemplar de cinema independente brasileiro. Gostei, em especial porque Pizzi não pretende exibir-se intelectualmente como “autor”, como andam fazendo muitos estreantes, cheios de pretensão e vazios. Pizzi “conta” uma história intensa, protagonizada e escrita por sua própria mulher, a atriz Karine Telles.

Ela interpreta Bianca, que faz teatro e paga suas contas com performances nas quais imita Marilyn Monroe e Betty Page. Até o momento em que surge a grande oportunidade de estrelar uma co-produção França e Brasil na qual fará o seu próprio papel. O filme exibe um frescor raro, tanto na maneira de movimentar a câmera quanto no uso de um naturalismo que nunca soa agressivo. Pelo contrário, passa muita verdade ao espectador. Que, inclusive, se compadece da protagonista e entra no ritmo do desencanto que ela mesma experimenta.

Quem  já não teve a sensação de ser coadjuvante de sua própria história? Mesmo assim, é melhor atuar do que permanecer à margem. Belo filme.

 

 

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