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Diário de Gramado 2011: Chuva A Tiro de Piedra e Uma Longa Viagem

Luiz Zanin Oricchio

08 de agosto de 2011 | 11h26

GRAMADO – Pois é, a chuva chegou a Gramado, perturbando todo mundo e dando à cidade um ar melancólico, que não deixa de ter certa beleza. Um clima assim seria até possível de ser fruído, com um bom conhaque na mão, charuto na outra e reflexões civilizadas sobre as limitações da condição humana. Isso, se não houvesse tanto a fazer. Como, por exemplo, ver e comentar filmes, entre outras tarefas.

Ontem, no Palácio dos Festivais, uma boa e uma má surpresa. Primeiro, o aviso de que a cópia do mexicano A Tiro de Piedra não havia chegado e o concorrente seria exibido em DVD. O que não se esperava era que fosse, ainda por cima, uma cópia de serviço, com marca d’água gigantesca do Instituto Mexicano de Cinema, na parte superior e inferior da tela a defender o longa contra qualquer possibilidade de pirataria. A parte positiva é que o filme é tão bom que nem essa circunstância infeliz foi capaz de estragar a sessão.

O filme é dirigido por Sebastian Hiriart, que subiu ao palco e conquistou a todos com seu bom humor, mais raro ainda diante das circunstâncias. Com um cabelo exótico, exibindo uma espécie de coque, que lembra algum tipo de samambaia plantada na cabeça, Hiriart disse que era ingrato um diretor se desculpar pelo filme “antes da projeção”. Querendo dizer, que, depois da projeção as desculpas ao público são mais do que normais, merecidas até. Todo mundo riu porque, como boa piada, a segunda parte da sentença ficou implícita.

O fato é que, apesar de exibido nessas condições deploráveis (haverá outra sessão quando e se a cópia em 35 mm chegar), A Tiro de Piedra conquistou a todos. O excelente Gabino Rodriguez faz o camponês cansado de pastorear cabras em seu vilarejo. Ao encontrar um chaveiro, que contém um endereço, vê no fato um sinal para mudar de vida. E põe na cabeça que deverá ir até aquele lugar onde por certo um tesouro o aguarda. Acontece que o endereço é no Oregon, no norte gelado dos Estados Unidos, o que supõe uma viagem complicada, sendo necessário, em primeiro lugar, atravessar a fronteira com o país vizinho, com tudo o que isso implica para os mexicanos.

O resultado é um inspirado road movie, com um personagem esculpido sem vitimização e que, a partir de certo ponto, só consegue pensar em sobreviver. Nas entrelinhas, surge toda a relação ambígua entre México e Estados Unidos, expressas nas atitudes das pessoas em relação às outras. Belíssimo filme, original não apenas no mote (o que move o personagem é uma obsessão) mas na maneira pouco retórica e minimalista com que trata o assunto.

Do extraordinário Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat, falo pouco porque já comentei esse filme quando ele concorreu mês passado no Festival de Paulínia. Os festivais repetem filmes mas nem por isso devemos, como eles, nos tornarmos repetitivos.

Apenas em respeito ao leitor, relembro que o filme evoca o drama familiar da diretora numa época muito particular da história da brasileira. Fala dos três irmãos, ela própria, o caçula Heitor e o mais velho, que se tornou médico. Lúcia foi para a luta armada e foi presa pela ditadura. Para que ele não seguisse os passos da irmã, a família mandou Heitor para  a Inglaterra, onde ele entra em contato com a contracultura, passa a viajar pelo mundo. E viajar em si mesmo, pelo uso intenso de drogas. Em suas viagens pelo mundo, Heitor mandava cartas à família, cartas que são interpretadas pelo ator Caio Blat.

O filme é não apenas um retrato bastante contundente sobre uma época dilacerada como imersão em um personagem fascinante, Heitor, que fala de sua vida com grande inteligência e senso de humor. Sua viagem, ficamos sabendo, nem sempre foi feliz. Diagnosticado como esquizofrênico, sofreu várias internações. É comovente, e engraçado. Rimos com ele e nunca dele.

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