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Diário de Gramado 2010: Noite gelada e os primeiros filmes

Luiz Zanin Oricchio

07 de agosto de 2010 | 10h49

Viemos para Gramado com a torcida do Inter e chegamos ao aeroporto Salgado Filho quase junto com o time. Havia uma multidão esperando. Uma linda festa para os colorados que, na véspera, haviam jogado com o São Paulo e, apesar da derrota de 2 a 1, saíram classificados para a final da Libertadores, com o Chivas de Guadalajara. Enfim, metade dos gaúchos está em festa. E a outra metada – a dos gremistas – se roendo de raiva. Futebol aqui é muito polarizado. Como a política, no Brasil inteiro.

Enfim, chegamos com sol, o que fez muita gente comentar que a história da onda de frio no sul do País era propaganda turística e que não estava tão gelado assim. Quando baixou a noite, sai de baixo. Gelou, temperatura a ponto de espantar pinguim. Termômetros, supunho, perto do zero grau. Hoje de manhã mesmo, quando saí para dar uma caminhada, estava frio pra burro. Tive de voltar atrás e botar mais agasalho. Passei por um termômetro de rua: estava seis graus Celsius. Fora o vento.

Ontem à noite mesmo começou o festival, ainda meio tateante, sem a sala cheia, talvez com muita gente ainda por chegar à serra gaúcha. Dois filmes, ambos já em competição: Bróder, de Jeferson De, e Enquanto a Noite não Chega, de Beto Souza.

Bróder eu já havia visto em Paulínia. Foi legal rever. Gosto muito do filme, apesar de ter achado a projeção aqui em Gramado inferior à de Paulínia. Até achei que lá passou em película e aqui em digital. Não sei. Só sei que os matizes de cor, a profundidade, a textura – tudo se perdeu numa projeção chapada, com as cores lavadas. Som bom. E a confirmação de que se trata de um belo filme, com alguns pequenos defeitos (mas qual não os tem). Fiquei mais uma vez impressionado com o trabalho de Caio Blat no papel de Macu, um dos três amigos que se reencontram no Capão Redondo. Os outros são Pibe (Silvio Guindane) e Jaiminho (Jonathan Haagensen). Três amigos, três destinos muito diferentes, num fime sensível e, suponho, de boa comunicação com o público. Agradou.

O segundo longa da sessão foi uma adaptação de Beto Souza para o livro homônimo de Josué Guimarães. A história é a de um casal de velhinhos (Clênia Teixeira e Miguel Ramos) que vive de suas recordações (inclusive a do filho morto em uma revolução). Na cidade em ruínas, antes parte de uma malha ferroviária abandonada, também mora apenas o coveiro (Sirmar Antunes), que se diz pronto para cumprir sua missão. O que espera o casal? A morte, obviamente. Lembra o belo filme Hamaca Paraguaya, de Paz Encina, que passou na Mostra. Mas, o problema, nesse tipo de trabalho, é manter a atmosfera, o clima dessa espera que já não tem razão de ser e só se alimenta da recordação. Não me pareceu muito boa ideia a inserção na trama de filmes, supostamente registrados pelo personagem ao longo da vida, como cineasta amador. Além disso, a trilha sonora torna-se onipresente, sufocando o que haveria de climático nessa história de crepúsculo. Tudo isso contribui para passar uma impressão de artificialismo, em nada produtivo para os propósitos do filme. Pena.

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