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Diário de Gramado 2010: Anotações de um festival

Luiz Zanin Oricchio

16 de agosto de 2010 | 16h43

Vão aí, de forma meio esparsa e lacunar, algumas anotações sobre este recém-encerrado festival de Gramado.

Resultado das premiações: gostei, com ressalvas. No atacado, o júri foi bem. Premiou Bróder de maneira consistente (filme, diretor, ator para Caio Blat), apontando que algo diferente está acontecendo no cinema brasileiro. Bróder e 5 x Favela (que ganhou Paulínia e passou em Gramado fora de concurso) são filmes-sintoma desse novo estado de coisas. Que batizo de: “a perifa tomando consciência audiovisual de si mesma”.

Por outro lado, acho que o júri carregou demais nos prêmios a Não se Pode Viver sem Amor, de Jorge Durán, inclusive o de melhor roteiro, que na verdade é o que o filme tem de mais problemático. Ao mesmo tempo, o júri oficial ignorou o comovente Diário de uma Busca, de Flávia Castro, por sorte premiado pela crítica.

No aeroporto, fizemos amizade com um dos integrantes do júri e debatemos amplamente essa questão. Os argumentos dele não me convenceram. Suponho que os meus tampouco o tenham convencido. Mas houve diálogo, o que já é alguma coisa.

Já na categoria de longas estrangeiros, a premiação de Mi Vida con Carlos, o maravilhoso e comovente documentário de Germán Berger que resgata a memória do pai, morto pela ditadura Pinochet, compensa qualquer problema. Apenas um reparo: pena que um filme tão original quanto El Vuelco Del Cangrejo, da Colômbia, tenha sido ignorado.

Mas, no geral, a premiação foi boa. Embora confusa. Quem assistiu à cerimônia ficou com a impressão de que os troféus chamados de “Cidade de Gramado” foram atribuídos por um júri de estudantes. Não foram. Foi o próprio júri oficial quem indicou os vencedores em categorias como direção de arte, montagem, trilha, etc, como me informou o jurado que encontrei no aeroporto.

Ou seja, está tudo muito confuso. Sugestão para o próximo festival: que no catálogo constem quais são os prêmios e quem os atribui. De maneira clara, por favor. Não é a primeira vez que se fazem trapalhadas em Gramado por esse motivo. Com isso, o retrato final do festival fica um pouco borrado, o que não parece ser do interesse de ninguém. E menos ainda de quem está obrigado, por dever de ofício, a zelar pela clareza.

Houve também uma tremenda baderna de suportes. Alguns filmes se anunciavam como 35mm e batiam na tela como os mais reles dos digitais. Ok, havia digital de boa qualidade. Mas outros pareciam VHS doméstico. O digital chegou e ponto. Não adianta chorar pela película perdida, embora eu ainda ache que até agora é insubstituível, etc. Mas, do jeito que a coisa foi feita em Gramado, parece anarquia. Que pelo menos conste para o público em que suporte o filme foi captado e como será projetado. Transparência, por favor.

No balanço geral, a curadoria Sanz & Avellar fez bom trabalho. Os filmes estrangeiros foram, na média, superiores aos brasileiros. Mas, mesmo entre os brasileiros, alguns filmes “tortos”, porém de interesse, como O Último Romance de Balzac, de Geraldo Sarno, e Contestado, de Sylvio Back, justificaram a presença na seleção.

Além disso, na Mostra Panorâmica, houve alguns filmes muito estimulantes como A Última Estrada da Praia, de Fabiano Souza, livremente adaptado de O Louco de Cati, de Dyonélio Machado. O argentino Dois Irmãos, de Daniel Burman, também é muito legal, e Elvis e Madona, de Marcelo Lafitte, parece bem divertido em sua proposta anárquica. Terra Deu, Terra Come, de Rodrigo Siqueira, é um documentário fora de série, surpreendente, com um personagem como poucas vezes se vê na tela. Ex-Isto, de Cao Guimarães, talvez tenha sido o ponto mais alto desse festival. Não competiu – eu soube em off – porque já estava comprometido com a Première do Festival do Rio.

Este ano participei do júri da crítica que, em Gramado, é organizado pela Associação de Críticos do Rio Grande do Sul. Desde o ano passado eles estabelecem a participação de um número limitado de participantes. Este ano votaram Marcos Santuário, Marcus Mello, Marcelo Miranda, Francis Vogner, Celso Sabadin, Paulo Henrique Silva, Ismaelino Pinto, Jaime Costa e este que vos escreve. E que, aliás, não foi incluído nem no site nem no jornalzinho do festival, mas que lá esteve, discutiu e votou. As reuniões foram ok e as discussões e resultados, produtivos, a meu ver. Longa brasileiro: Diário de uma Busca; longa estrangeiro: El Vuelco Del Cangrejo; curta: Babás.

Houve também um encontro de críticos, do qual participei, com exposição sobre as experiências de cada um no trabalho escrito em papel (jornal), na internet (sites e blogs) e também no rádio. Acho que foi legal, como troca de experiências.

Alguns dos debates com diretores e elencos dos filmes foram bem estimulantes, em particular os de Cao Guimarães e de Flávia Castro. Mas não acompanhei a todos, por falta de tempo. O festival, como quase todos os outros, transformou-se em maratona. E o deste ano foi longo, nove dias, talvez longo demais.

Outro problema. Ficou mais difícil acompanhar as atividades depois que construíram um elefante branco chamado Expo-Gramado, um pavilhão fora da cidade onde acontecem os debates e coletivas de imprensa. É longe e difícil de chegar (fica no alto de um morro) e a condução esteve particularmente ruim este ano. Perdiam-se horas esperando carro. E nem havia a alternativa de se socorrer com os táxis porque eles são raros na cidade. Antes, os debates eram num prédio da Universidade do Rio Grande do Sul, no centro. Além de mais acolhedor, facilitava demais a vida dos festivaleiros. O monstrengo atual é frio, insalubre e fora de mão. Deveria ser abandonado em prol do festival e as atividades realocadas na Universidade. Seria um alívio para todos.

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