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Diário de Gramado 2010: 180°, Balzac e a velhinha

Luiz Zanin Oricchio

09 de agosto de 2010 | 11h23

Os filmes vão se sucedendo, sem realmente encantar, até agora (a exceção talvez seja Bróder, mas este já conhecíamos).

180°, de Eduardo Vaisman, parte de uma história engenhosa. Um jornalista torna-se escritor, baseando seu romance em anotações encontradas em uma caderneta. Há um triângulo amoroso, uma série de equívocos, numa história contada de trás para a frente. O problema são os personagens definidos de maneira muito superficial. Fica-se com uma impressão de frieza, num filme que pretende ser cerebral, mas não consegue sê-lo, e tenta, também, colocar em jogo a paixão dos personagens, também com pouco êxito

Já o argentino La Vieja de Atras, de Pablo Meza, tem lá seus encantos. O clima é de uma Buenos Aires um tanto antiquada, como o velho edifício onde mora a senhora solitária, vizinha de um estudante de medicina, pobre como um rato de igreja, como se dizia. Lá pelas tantas, temos a impressão de que teríamos uma releitura de Crime e Castigo, mas é uma pista falsa. A passividade dá o tom do personagem masculino, que se complementa com a carência afetiva da velha senhora. Num filme de pausas, de indecisões, o tempo parece quase parado. É também bastante lacunar para satisfazer quem gosta de histórias indefinidas. Mas é um filme de câmera, suave e discreto até o limite. Não empolga. Nem no sentido metafórico.

Em O Último Romance de Balzac, Geraldo Sarno usa um misto de ficção e documentário para esmiuçar a vida do escritor francês. Um dos primeiros romances de Balzac, A Pele de Onagro, é encenando, em preto e branco e sem diálogos falados, à maneira dos filmes mudos. Em paralelo, são entrevistados um médium e um estudioso da obra do escritor, que teria sido psicografado por Waldo Vieira, médico próximo a Chico Xavier. O tal livro de Balzac seria Cristo Espera por Ti, pelo que se entende psicografado em português. Bem. Para um materialista, a impressão que se tem é o da construção de um pensamento delirante.

Como sabem muito bem os psicanalistas, muitos desses pensamentos delirantes têm sua lógica interna e mesmo seu encanto. Mesmo assim, algumas ligações do filme parecem forçadas demais, embora a reprodução paralela do relato de A Pele de Onagro tenha lá sua virtude.

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