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Diário de Gramado (1) Memórias do Subdesenvolvimento e Quase um Tango

Luiz Zanin Oricchio

10 de agosto de 2009 | 10h05

Foi, como sempre, muito legal rever Memórias do Subdesenvolvimento, de Alea, na tela grande. Desta vez na tela do Palácio dos Festivais, em Gramado. Continua a ser, a meu ver, um dos grandes filmes, não apenas do cinema latino-americano, mas do cinema tout court. Invenção formal e reflexão política – para o meu gosto, é A receita. Mas não foi o que pareceu ao público de Gramado, ou parte dele. Era comum ver pessoas que entravam no meio da sessão, desavisadas, olhavam para a tela e aquele estranho filme cubano, em preto e branco, e desanimavam em cinco minutos. E olhe que Memórias nada tem do clássico filme-cabeça, hermético ou sisudo. Nada disso, é cheio de bossa, movimento, charme. Mas o gosto do público, já se sabe…

Já o primeiro concorrente brasileiro, Quase um Tango, de Sérgio Silva foi bem recebido. Pena que a projeção digital tenha mostrado imagens chapadas, cores desmaiadas. Não consigo entender como um diretor filma em 35 mm, como foi o caso, e apresenta seu filme numa cópia digital para concorrer num festival. Mas, enfim, é filme de qualidade, embora às vezes pareça meio óbvio e até ingênuo. Mas tem certa beleza. Alterna um tom pastoril com o urbano ao contar a história de Batavo, apelido do descendente de holandês interpretado por Marco Palmeira. Ele é um bom tipo, tem o seu sítio, se casa mas a mulher quer dar voos maiores. Mais tarde, já em Porto Alegre, Batavo tentará refazer sua vida com outra mulher. Ambas são interpretadas pela mesma atriz, Vivianne Pasmanter. Formalmente, o filme é careta, mas tem certo frescor, o que transmite, de certa forma, a ideia do realizador – a alegria de viver, apesar dos dramas, tropeços do caminho, etc. Vê-se bem.

Mas, como eu disse em alguma parte, é grande risco abrir um festival com Memórias do Subdesenvolvimento. Tudo que vem depois parece pálido, careta, dispensável.

Fora isso, Gramado ainda não pegou no breu. O tempo está péssimo, com chuva (o frio é bem-vindo, mas a seco) e o cinema ainda tinha vazios. Deve ir esquentando aos poucos, com a chegada das pequenas e grandes celebridades, etc. Da nossa parte, esperamos que venham os bons filmes.

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