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Diário de Brasília (8): um plano geral

Luiz Zanin Oricchio

23 de novembro de 2008 | 12h34

Saí meio do ar um tempinho por excesso de compromissos aqui em Brasília. Volto à tona para registrar que dois retratos do Brasil profundo ocuparam a tela do Cine Brasília no fim de semana: Siri-Ará, de Rosemberg Cariry, fala, em tom alegórico, da fundação do Estado do Ceará e, por extensão, da nação brasileira. Ñande Guarani (Nós, Guarani), de André Luís da Cunha, revela os problemas de sobrevivência da nação indígena guarani, espalhada por vários países – Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina.

O filme sobre os guarani é muito simples; e, com essa simplicidade e emoção ganhou a platéia –já ganha, de antemão, porque se trata de um filme da casa, convém registrar. Já Siri-Ará exigiu muito do público. Denso em alegoria, com um tipo de estética mais localizável nos anos 70 do que na contemporaneidade, usa de reisados e bandas de pífano para contar a história de um conflito, de um massacre, que seria um dos atos fundadores da nação brasileira – “nosso processo civilizatório é assentado sobre ossadas”, disse Cariry no debate.

Debate, aliás, que poderia ter evoluído melhor caso o cineasta não se mantivesse na defensiva. Cariry é um homem muito culto e dá gosto ouvi-lo. Nem sempre, na minha opinião, consegue traduzir essa cultura toda em seus filmes. Mas esta é outra história e gostar ou não gostar de uma obra acaba sendo questão de gosto mesmo. Agora, o que cerca a construção de um filme pode ser objeto de debate. Quais as opções, por que tal coisa é representada de um jeito e não de outro? Isso quando se sabe que a “forma”, a linguagem cinematográfica, nunca são neutros e dizem muito (dizem tudo, de fato) da visão de mundo do artista. A ausência de discussão sobre a linguagem acaba empobrecendo muito as possibilidades dos debates. Alguns cineastas gostam apenas de ouvir elogios. E parte do público acha o debate sobre linguagem meio esotérico. Assim, não importa tanto a linguagem vetusta mas o “tema” abordado. Desse jeito não se vai em frente. Do nosso lado, por aqui, vamos tentando fazer o nosso trabalho e avançar alguma coisa nesse sentido.

Por falar nisso, ontem à tarde fui ver a seção do festival chamado Mostra Brasília, composta apenas de produções do DF. Vi o longa de André Luis Oliveira, Sagrado Segredo. Bem, o “tema” não me interessa tanto: a filmagem da Paixão de Cristo numa das cidades-satélite de Brasília. Claro, André Luís, que já ganhou o festival com Loucos por Cinema, vai muito além disso. Faz uma espécie de making of da filmagem e do processo de conversão (religiosa) do diretor. Ele próprio, no palco, disse que o filme fazia parte do seu processo de busca espiritual. Estou dizendo tudo isso apenas para enfatizar que nada disso seria de molde a comover este empedernido materialista.

Pois bem, achei o filme, em boa parte, um magnífico exercício de cinema. Os primeiros, sei lá, dez minutos, são puro cinema, com a câmera infiltrando-se nos figurantes durante os passos da Paixão. Comovente, de fato.

Claro, o filme tem problemas evidentes que eu localizo, por exemplo, na entrevista com um místico indiano que fala sobre Jesus e traça estranhas aproximações entre a religião e a mecânica quântica, considerações que me parecem deslocadas, além de quebrar o ritmo do filme. Seja lá como for, as partes mais interessantes de Sagrado Segredo expressam um vigor cinematográfico que não tenho visto na mostra “principal”.

Preciso falar dos curtas, mas isso fica para outro post.

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