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Diário de Brasília: O Céu sobre os Ombros

Luiz Zanin Oricchio

29 de novembro de 2010 | 07h46

As histórias humanas de O Céu sobre os Ombros são tão incríveis que parecem inventadas por um roteirista de imaginação fértil. Uma delas é sobre uma transsexual, formada em psicologia, professora universitária e prostituta. Outra, mostra um adepto da seita Hare-Krishna, que também é líder da Galoucura, a fanática torcida organizada do Atlético Mineiro, cozinheiro de restaurante natural e atendente de telemarketing. A terceira é a de um angolano com veleidades literárias, escritor inédito, que nunca trabalhou em sua existência e pai de um filho deficiente.

Seres extraordinários, não porque tenham feito algo de tão grandioso assim, mas porque mantêm uma posição excêntrica em relação à norma e inserem-se no mundo social de maneira muito particular. O diretor, que integra a produtora mineira Teia, fez teste com uma série de possíveis personagens e escolheu aqueles que tivessem melhores histórias e também se relacionassem bem com a câmera. No filme, interpretam-se a si mesmos. E com muita convicção.

Desse modo, a transsexual Evelyn, o hare krishna Bogus e o escritor angolano Lwei Bakongo veem-se através dos papéis que vivem na tela. Este filme é um documentário sobre três pessoas um tanto fora do esquadro? Uma ficção sobre o lado B da sociedade? Sim, mas, mais provavelmente, desenvolve um processo que se pode chamar de autoficção, no qual as pessoas interpretam seus papéis sociais, não exatamente como eles são, mas como os percebem diante dessa testemunha nada imparcial que é o olho mágico da câmera cinematográfica.

Nesse retrato formado por autorretratos, existem muitos espaços em branco, vácuos que permitem a respiração das histórias. O bom cinema, como a boa música, é feito de lacunas, de pausas e tempos mortos. Essa noção de ritmo (porque é de ritmo que se trata) encorpa O Céu sobre os Ombros. É exatamente por não sabermos tudo sobre os personagens que eles adquirem espessura e consistência humanas.

Em patamar distinto trafega outro concorrente entre os longas-metragens, o também mineiro Os Residentes, de Tiago Mata Machado. Em registro sub-godardiano, costurado por uma infinidade de referências cinematográficas (Cassavetes, Eustache, etc.), o filme, com seu artificialismo, levou a platéia do Cine Brasília a tal exasperação, que, no meio da projeção alguém gritou: “Volta, Bressane”. A súplica se endereçava a outra das referências de Os Residentes, o cineasta Julio Bressane, o “sr. Brasília”, pois já venceu quatro vezes o prêmio principal. Bressane é conhecido por seus filmes tão obrigatórios como difíceis. Às vezes é complicado assimilá-los, mas a recompensa é grande. De Os Residentes e seus personagens ilustrativos de teses do diretor, sobra apenas a sensação de vazio.

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