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Diário de Brasília Memória dos anos de chumbo

Luiz Zanin Oricchio

21 de setembro de 2012 | 10h31

 

Com A Memória que me Contam, Lúcia Murat volta aos anos de chumbo e à sua própria experiência pessoal na luta armada. A personagem de que todos falam ao longo do filme é Ana (Simone Spoladore), que está à morte num hospital. Ana é inspirada na figura da guerrilheira Vera Lúcia Magalhães, que participou do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Depois foi presa e torturada. Em 1970, foi trocada, junto com outros 39 presos, pelo embaixador alemão Von Holleben. Nunca se recuperou por completo da tortura e sofria crises de psicose. Retornou ao Brasil com a Anistia e morreu de infarto em 2007, aos 59 anos.

Em 1988, Lucia Murat estreou com Que Bom Te Ver Viva, filme com depoimentos de mulheres torturadas durante a ditadura, intercalados com cenas ficcionais vividas por Irene Ravache. Em A Memória que me Contam, Irene Ravache volta à cena, como alter ego da cineasta. Sua personagem, também chamada Irene, é uma cineasta que tem de se confrontar com a morte iminente de sua grande amiga Ana e com a reavaliação da luta armada à luz de um país redemocratizado e que elegeu uma ex-guerrilheira e também vítima de tortura à Presidência da República.

Ou seja, “alguns de nós chegaram ao poder”, com se diz ao longo do filme. Mas o que restou daquela luta, daquele sacrifício e também dos equívocos todos cometidos nos anos rebeldes? Sem dúvida, é esse pesado e complexo balanço que o longa tenta realizar. Como o fardo é um tanto pesado, não espanta que o filme sofra entraves em certos momentos. Mais ainda porque a autora, se tem o privilégio de conhecer por dentro todo o processo, parece às vezes ter seus problemas de distanciamento.

Ao Estado, Lúcia disse que não se preocupou com a questão do distanciamento, ” mesmo porque isso seria impossível para quem viveu todo aquele processo tão intensamente quanto eu”. Acrescenta que procurou retratar alguns segmentos na história: ” A diretora representa as artes, há um ministro ex-guerrilheiro, os jovens que não viveram aquela época, mas recebem os seus ecos e consequências.” O ator Franco Nero vive um guerrilheiro italiano exilado no Brasil e que sofre um processo de extradição impetrado pela Itália.

Kátia Tapety tornou-se a primeira travesti a ser eleita para um cargo público no Brasil. Ele é vereadora numa pequena cidade no interior do Piauí e ganha agora esse documentário dirigido por sua conterrânea Karla Holanda. Um bonito filme, muito bem fotografado (pela craque Jane Malaquias), que acompanha o dia a dia dessa personagem simpática. Vemos seu cotidiano no trabalho duro da fazenda e também na cidade. O preconceito, a pressão familiar (“Meu pai dizia que filho homossexual tinha mais é de morrer”, ela conta) e social dão conta da vida difícil, que a personagem enfrenta com muita garra. Kátia é um filme simples, que passa longe do mergulho radical que o tema mereceria, mas mesmo assim é digno. E simpático, como a personagem. Mereceu os aplausos que ganhou do público de Brasília.

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